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Crianças em cativeiros
Augusto Machado

SAO mundo está louco. Não há moral. Cada vez há menos respeito pelo ser humano e nem sequer pelos mais vulneráveis – em particular as crianças. Nem essas escapam a estas horrendas acções desumanas que, supostamente deveriam ser protegidas pelos seus progenitores. Nas últimas semanas uma menina e uma adolescente foram libertadas do seu sequestro. E num dos casos foi o próprio pai que sequestrou a filha juntamente com a mãe.

O pedreiro Fernando Brito dos Santos, de 48 anos, de Itapetinga, município a 562 quilómetros de Salvador, no Sudoeste do estado da Baíha, Brasil, foi preso por manter a filha cativa desde que nasceu. A menina, agora com nove anos de idade, mantida no cárcere desde bebé, não foi à escola, nunca brincou com outras crianças, não soube o que é crescer em liberdade, privada e afastada do convívio social, junto da mãe, que sofre de cancro e também ela prisioneira num casebre de madeira juntamente com as galinhas. A menina, que segundo as autoridades locais, apresenta graves problemas de coordenação motora e mal sabe expressar-se. Não consegue sequer cuidar das suas necessidades mais básicas e terá que ser internada numa instituição para aprender o que não aprendeu durante os primeiros nove anos da sua vida. A mãe da criança, sofrendo de doença cancerosa, não fazia qualquer tratamento porque o marido não permitia, foi agora, depois de encontrada no esconderijo, socorrida e internada no hospital.

O outro caso, que tem sido mais divulgado recentemente, é o da Natascha Kampusch, a adolescente austríaca presa numa cela subterrânea durante oito anos e meio. Leram bem, oito anos e meio numa cela subterrânea! A jovem tinha apenas 10 anos quando foi sequestrada por um tal Wolfgang Priklopil, que se suicidou sob um comboio a 23 de Agosto, horas depois de a jovem ter conseguido fugir da casa onde era mantida presa, declarou a polícia austríaca.

Natascha, agora uma adolescente e que os leitores de certo devem ter visto e ouvido na televisão a contar ao mundo o seu drama e a coragem para ultrapassar o medo, é admirável! A jovem valeu-se da virtude da paciência para manter viva a esperança de um dia sair daquele pesadelo e voltar a ver a sua família. Claro, que há sempre alguém que pensa que não foi bem assim; existe a teoria de que a jovem se tenha afeiçoado ao raptor. E dão como exemplo o facto de Natascha ter feito uma breve visita à morgue para se despedir do sequestrador.

Mas também se sabe que durante a sua sequestração, a jovem austríaca leu muito. Ela própria admitiu, durante a entrevista, que os livros (fornecidos pelo próprio raptor) ajudaram-na a superar os dias e as noites difíceis em cativeiro. E quem teve a curiosidade de observar e analisar a entrevista terse- á apercebido que de facto, Natascha, durante a sua clausura, aproveitou o tempo para se instruir. Notou-se na facilidade como se expressava e no seu rico vocabulário. Essas longas horas de leitura, para além de possivelmente lhe terem salvado a vida, também devem ter servido para, de certo modo, melhor compreender o seu raptor. Talvez um homem mentalmente instável, a precisar de ajuda, mas com falta de coragem para a procurar. É de notar que a jovem, sem aparente rancor, emitiu um comunicado onde lamentava a morte de Wolfgang Priklopil.
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