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Um nome amaldiçoado
Augusto Machado

SANinguém quer ter o nome de um ditador. E muito menos dum ditador que exterminou centenas de milhares de curdos e sunitas. Estamos a falar do ex-líder do Iraque, Saddam Hussein, que presentemente está a ser julgado pelos crimes que cometeu contra o povo iraquiano. Este tirano destemido, que continua a desafiar a própria justiça iraquiana, mantém-se imperturbável perante as acusações.

E porque as seitas continuam a chacinar por todo o Iraque, os iraquianos que têm o nome Saddam ocorrem às conservatórias para se verem livre dum nome que lhes pode trazer a morte.

Desde a queda do regime em Bagdade, em Abril de 2003, ninguém quer chamar-se Saddam. Os homónimos do ex-líder querem ter outro nome. Não é, dizem, uma questão de vergonha, nem de traição – é de sobrevivência. Antes do regime cair, ser Saddam, era motivo de orgulho e prestígio; hoje é a certeza de ser morto no meio da rua, à mercê da impunidade que reina no país. O caos deve-se às divergências religiosas entre xiitas e sunitas: estes últimos, depois da expulsão de Saddam Hussein do poder, são perseguidos pelos xiitas. O povo revoltado e procurando a vingança, todo o iraquiano que tenha um nome de ascendência sunita é alvo para ser aniquilado.

Há mesmo esquadrões de morte xiitas que actuam nos postos de controlo à procura de sunitas: os bilhetes de identidade ditam logo a sorte da pessoa – a pena capital. Execução imediata. Em Julho, um dos mais mortífero destes ataques aconteceu no bairro sunita de Al-Jihad, em Bagdade, quando homens armados, mascarados e vestidos de preto mataram quem lhes apareceu na rua e entraram nas próprias casas. A chacina roubou a vida a 50 sunitas. A polícia iraquiana, como o resto da população, de maioria xiita, é acusada de cumplicidade.

O próprio Tariq Aziz, um dos homens fortes do regime de Saddam Hussein, e hoje prisioneiro de guerra, escolheu o nome para o seu filho mais novo Saddam Aziz. Depois de ter sido preso, implorou ao rapaz que mudasse de nome. Até os refugiados políticos a viver no estrangeiro requerem a mudança do nome: “Ser Saddam é um incómodo contínuo”, afirma um refugiado político curdo a viver na Noruega alegando que é constantemente incomodado com ameaças e perseguições.

No Iraque de hoje (que mais parece uma zona de guerra sem fim à vista), quem quer viver com um pouco mais de segurança, muda para nomes neutros, sem conotações políticas. Não é difícil prever que os próximos nascimentos no Iraque se venham a chamar Mohammad e Ahmed.

Entretanto, o mercado negro no país, para se obter documentos falsos, prospera porque as conservatórias estão congestionadas com tantos pedidos de mudança de nome. Há uma enorme procura de bilhetes de identidade e matrículas falsas. As placas dos carros que revelam o nome da província de origem são falsificadas porque nem todos desejam, para evitar males piores, pertencer a certas localidades. Todos tentam evitar ou esconder detalhes que os possam identificar – um simples autocolante de mártires xiitas, colados nos carros, levam os condutores à morte – porque os sunitas também retaliam nesta escalada de violência que se transformou em guerra civil.
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