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Portugueses descontentes
Augusto Machado
Mais de um quarto dos portugueses (27,7%) preferiam ser
espanhóis. É um número surpreendentemente elevado os
que defendem um Estado ibérico único. E mais: uma boa parte
destes não se importava que a capital fosse Madrid e se fosse
Monarquia, o Rei Juan Carlos seria bem aceite (52,6%
responderam sim) como chefe desse novo Estado.
Numa sondagem publicada no recém nascido semanário o “Sol”, que apareceu pela primeira vez nas bancas a 16 de
Setembro, quase 28 por cento dos portugueses acham que
Portugal e Espanha deveriam ser um só país e uma
esmagadora maioria destes mesmos descontentes (96,5%)
não tem dúvidas que Portugal desenvolvia-se muito mais
nesse Estado ibérico do que só. A mesma sondagem indica
que, os mesmos inquiridos que acreditam na união dos dois
países, acham que os portugueses teriam um melhor nível de
vida.
Esta sondagem deixa muita gente estupefacta. Porquê todo
este desencanto e desapego perante um dos países mais lindos
do Mundo, com uma rica e longa história repleta de heróis e
heroinas, a começar pelo nosso primeiro rei, D. Afonso
Henriques, e os nossos navegadores arrojados que, lançandose
na aventura do desconhecido, descobriram novos povos e
novos mundos? Donde vem este descontentamento? União
com Espanha! O desaparecimento da nossa mãe Pátria! Mas
que ideia absurda... Será que esses 27,7% dos cidadãos que
desejam a união com a Espanha não estudaram a História de
Portugal? Ou se o fizeram ignoram os 60 anos de opressão e
humilhação em que os nossos antepassados viveram sob o
jugo castelhano entre 1580 e 1640, ano em que reganhamos
a nossa Independência – com a “Revolução de 1640”.
Por outro lado, o Mundo de hoje vive numa economia global,
onde se derrubam fronteiras para, supostamente, melhorar o
bem-estar das pessoas, o que na prática nem sempre acontece.
E também se compreende que haja alguma frustração
naquelas pessoas que gostariam de viver num país mais
evoluído. Não é nada animador nem estimulante, saber que
vivemos num dos países mais atrasados da Europa. Apenas
conseguimos ser os primeiros em tudo quanto é mau e
negativo. Compreende-se, portanto, o desvanecimento
desses quase 28% quando vêem uma Espanha, aqui ao lado,
que também teve uma longa ditadura e que hoje é um país
invejavelmente desenvolvido e moderno. Soube aproveitar os
fundos comunitários, tem uma economia estável, um nível de
vida muito superior à dos portugueses e, na área da Saúde e
da Educação, os espanhóis estão muito melhor do que nós,
temos o exemplo dos doentes que preferem ser tratados em
hospitais e clínicas espanholas e as centenas de estudantes
portugueses do ensino superior que por diferentes razões
preferem estudar nas universidades do país vizinho.
Melhor compreende os sentimentos e as frustrações
desses descontentes quem vive aqui mesmo ao lado dos
nossos hermanos. É só atravessar a ponte e logo deparamos
na diferença. Desde o preço mais baixo da gasolina (10
cêntimos/litro) até às compras nos supermercados. É tudo
mais barato que em Portugal. E um atendimento esmerado e
com profissionalismo. As pessoas do outro lado da fronteira
têm outra atitude: educadas e sem preconceitos.

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