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A Internet é incontrolável?

SAA “Rede que mudou o mundo” está em permanente mutação e é um espelho da sociedade ao nível planetário. Um homem vai ser julgado nos Estados Unidos por ter arrombado um apartamento e ter tentado violar a mulher que aí habitava. Um crime que, infelizmente, não tem nada de incomum. A grande diferença é que Michael Howard, o alegado agressor, sustenta que estava a concretizar a fantasia que ele e a suposta vítima tinham previamente estabelecido, a partir de uma sala de chat na Internet. Os dois ter-se-iam encontrado numa sala intitulada “Rape Fantasy” (qualquer coisa como “Fantasia por violação”) e depois de alguns meses de diálogo teriam combinado a concretização real das suas fantasias.

Numa reviravolta, digna de um conto de Hitchcock, Michael enganou-se na porta que devia arrombar e acabou por entrar no apartamento errado e atacar a pessoa errada. O caso não foi pior porque a vítima perante a agressão reagiu com violência e quando não respondeu ao código de segurança que tinha sido previamente combinado, Michael apercebeu-se do engano e tentou explicar a situação.

Este caso caricato é apenas um de muitos que vêm a público com uma frequência cada vez maior. São o reflexo de um lado obscuro do mundo on-line. São a face menos agradável das facilidades de comunicação providenciadas pela Internet. São, em última análise, um sinal claro da mutação que este Mass Media tem vindo a sofrer pela influência da sociedade.

Na sua génese, a Internet serviu para a passagem de informações militares e científicas entre o Departamento de Defesa Norte-Americano e as Universidades. Com a sua massificação acabou por ser “contaminada” pelos mesmos defeitos que caracterizam todas as sociedades do planeta. A pergunta que se coloca agora é a de sabermos se é possível legislar este ciberespaço. A grande dificuldade é a de este “local” não se reger por nenhum dos princípios que utilizamos para estabelecer as regras que regem a nossa sociedade. Aqui não há espaço físico. Não há uma fronteira territorial. Não há um único idioma. Todos podemos ter identidades alteradas. O tempo é regido de outra forma.

E estes são apenas alguns exemplos. Mas servem para demonstrar a complexidade e a dificuldade que é poder elaborar uma legislação para o ciberespaço. Por outro lado, todos sabemos que um dos factores que faz da Internet o fenómeno que continua a ser, é exactamente o de ser um espaço democrático na verdadeira acepção da palavra. Um local onde qualquer um pode dizer o que pensa. Onde as restrições da “vida em sociedade” são mais ténues.

Mas isto implica que casos, como o que retratei no princípio deste texto, voltem a acontecer. Faz com que sites pornográficos continuem on-line. Que se continuem a transaccionar segredos militares e até a planear ataques terroristas. Vamos continuar a ver Portugal nos primeiros lugares da lista dos países europeus que mais sites pedófilos alberga e a assistir aos casos de jovens que são aliciados através das salas de chat a actividades menos lícitas. Este parece ser o “preço a pagar” pela mutação que a Internet sofreu. Da mesma forma que temos que lidar com os crimes que aumentam nas nossas cidades e com os ataques terroristas que ameaçam o nosso modo de vida. Respondendo à pergunta que coloco no título deste texto: sim. A Internet, como está actualmente, é incontrolável. Não vejo forma de num futuro próximo podermos alterar esta situação. Mas é preciso um meio termo. Porque arriscamo-nos a que os utilizadores comecem a evitar o ciberespaço.
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