|

A Lenda do Barco em Chamas
Manuel Carvalho
Numa crónica anterior interrogava-me eu quantas histórias
não ficarão por contar.
Quantas vidas magníficas ficarão para
sempre irremediavelmente ignoradas, cobertas pelo manto
espesso do tempo que corre à desfilada. Quanto material,
palpitante de vida, estará à espera de saltar para as páginas de
romance fremente por ser escrito, com a ansiedade com que
o trigo ondulante espera que o transformem em pão.
A saga dos irmãos Corte-Real e das suas viagens ao
Novo_Mundo, envoltas em mistério e quantas vezes em fantasia, é mais uma dessas histórias fascinantes. Ao ponto de ter
inspirado ao Fernando Pessoa o seu belo poema Só:
A nau de um deles tinha-se perdido
No mar indefinido.
O segundo pediu licença ao Rei
De, na fé e na lei
Da descoberta, ir em procura
Do irmão no mar sem fim e a névoa escura.
Tempo foi. Nem primeiro nem segundo
Volveu do fim profundo
Do mar ignoto à pátria por quem dera
O enigma que fizera.
Então, o terceiro e El-Rei rogou
Licença de os buscar, e El-Rei negou.
(...)
Que belo romance histórico daria! Os ingredientes estão
todos lá. Qualquer dia irei escrever à minha amiga Deana
Barroqueira, escritora nascida nos Estados Unidos mas a
residir em Portugal e sugerir-lhe este tema. Autora consagrada
de romances históricos de aventuras, com certeza irá
considerar seriamente a minha sugestão. Então quando lhe
revelar a lenda fascinante do “Barco em Chamas” da Île au
Héron, sei, adivinho que não poderá resistir ao desejo de deitar
mãos à obra.
Esta lenda, pouco lisonjeira para os rudes navegadores
portugueses da época, encontrei-a numa página da internet do
Centre d’études acadiennes da Université de Moncton e em
tradução livre e resumida conta-se assim:
Em 1500, Gaspar Corte-Real, navegador português, chegou
a estas paragens e, sob o pretexto de dar uma festa em sua
honra, convidou os principais chefes indígenas a subir a bordo
da sua caravela. Embriegou intencionalmente os incautos
desgraçados que quando acordaram, sobressaltados, já
estavam em pleno mar, a caminho de Portugal onde foram
vendidos como escravos. Deslumbrado com o sucesso da sua
viagem, Gaspar empreendeu nova viagem em 1501 tendo
chegado desta vez à Île au Héron, situada na Baie des Chaleurs,
no Golf St-Laurent, onde lançou âncora.
Alertados por mais esta incursão, um grande número de índios, sedentos de vingança, reuniu-se no local e numa noite
muito escura atacou a caravela e massacrou toda a equipagem.
Somente Corte-Real foi poupado: a sua morte deveria ser mais
lenta e dolorosa. Amarrado, foi colocado sobre um rochedo do
Héron, à beira-mar. Depois de durante mais de três horas o
terem martirizado atrozmente, abandonaram-no à mercê da
maré que subia lentamente e que acabou por engolir o infeliz
navegador.
No verão de 1502, Miguel Corte-Real , irmão de Gaspar,
inquieto, partiu por sua vez de Lisboa e após longa viagem
alcançou a Baie des Chaleurs onde encontrou a caravela
abandonada do irmão encalhada em terra.
O barco parecia intacto, não se avistava vivalma. Mas mal se
aproximaram, de surpresa, várias canoas rodearam a caravela
e, ágeis como macacos, os índios subiram rapidamente a bordo
e massacraram rapidamente parte da tripulação. O capitão e os
restantes sobreviventes ao assalto inesperado, foram-se
refugiar na proa da embarcação que, sem governo, partiu à
deriva, com todos os combatentes a bordo. Subitamente,
deflagrou um grande incêndio que alastrou rapidamente pelo
barco que, com as velas em chamas, singrava velozmente
sobre as águas. Só um dos índios sobreviveu à catástrofe para
contar o que aconteceu. Do destino de Miguel Corte-Real e
dos seus companheiros não narra a lenda deixando em aberto
todas as suposições, entre as quais se inclue o mistério das
inscrições talhadas no já célebre Dighton Rock, encontrado
séculos mais tarde.
A partir desse fatídico dia, geralmente no mistério da noite,
frequentemente em vésperas de tempestade, surgia na baía
um barco em chamas que fantasmagoricamente singrava
sobre as águas apavorando a população da Île au Héron.

 |