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Os filhos, património de amor?
J.J. Marques da Silva

SADescendentes de qualquer estirpe natural os filhos serão sempre linhagem duma hereditariedade marcada por qualidades distintas ou defeitos salientes.

Portanto, o melhor património pode ser uma boa ou má recordação, ou ainda melhor, oportunidade para merecida reverência. Daí a raça apurada dos animais. Ainda temos memória do “Kurica”, um livro de Henrique Galvão que descreveu um leãozinho, recolhido em casa, e que brincou no quintal com as galinhas, enquanto bebé, até que arranhou uma e lhe provou o sangue. Se o deixassem crescer junto delas comê-las-ia todas para satisfazer o seu instinto. E com os filhos biológicos do homem e da mulher, que qualificação fazer?

Se transportarmos o exemplo para a natureza humana, as consequências hereditárias podem ainda ser mais desastrosas porque o ser humano tem maior consciência dos seus feitos. O sistema nervoso e celular, equilíbrio ou doença mental, dão muitas vezes resposta aos desvios e apetites escondidos no íntimo da natureza humana. É verdade que a educação pode corrigir a natureza. Mas tem de ser executada e não disfarçada pela incúria, sobretudo tratando-se de nossos filhos. A mãe que esconda sempre os defeitos dos seus filhos (alguém escreveu) será como a tigela com tampa. Levantada a tampa o conteúdo será aproveitado, e pode sê-lo com proveito negativo e nefasto. Em negligência de berço o Diabo aproveita para ser ele quem embala...

Os pais, já o temos dito muitas vezes, são os pastores de seus filhos para os nutrir, deleitar, e conduzir, de princípio nas enseadas da sociedade, e quando adultos creditando-lhes o conhecimento com a valia da sua experiência.

Será assim com todas as famílias?

Há dias escutamos a notícia de uma mãe que apresentou queixa do filho, à polícia, por ter utilizado a residência para estúrdia com amigos dele, e depois da estroinice, vandalizando- lhe a casa e quebrando o que quiseram...

Não procuramos saber mais do que escutamos.

Supomos que havia ausência de pai, e que esta mãe era senhora de todas as tarefas daquele lar inquietante, onde, nem de espírito, nem de corpo, nem de autoridade, podia conduzir o filho para os deveres da moral, mesmo na pobreza duma acção social, todavia nobres de empreendimento. O que nos choca e constrange, é conhecermos casos destes, onde, quando a polícia opera, quem sofre mais são os pais e, particularmente as mães pela ternura intensa dum coração sempre perdoador. Todavia há filhos que também sofrem.

Na sociedade moderna há filhos que mal conhecem os pais, mesmo que pareça nada lhes faltar em casa. Com o verbo “conhecer” queremos dizer “saber quem são”. Certo jovem queixa-se ainda como na adolescência: -”Quando meu pai chegava a casa eu já estava dormindo; quando me levantava, para ir à escola, ele estava resso-nando como um trompete... Minha mãe sempre tinha festas, chás de beneficência e palestras variadas quase todas as semanas; quando queria acompanhá-la, na minha adolescência, respondia- me que eu não tinha idade, que eram reuniões para adultos; na minha juventude que não eram lugar para matulões. Nunca cheguei a conhecê-los convenientemente.

Hoje sou eu que me esquivo de acompanhar qualquer deles. Meu pai ligou-se com a secretária dele; minha mãe espera a conclusão do divórcio para decorar outro lar a seu modo; eu canso-me a imaginar como poderei ter uma esposa e filhos, neste mesmo mundo, mas ser diferente no amor, nos desejos, e querido na sociedade sem comédia ou afectação!” Porém a tragédia também pode acontecer, dentro das mais legítimas esperanças. Conhecemos um casal de pessoas amorosas que se esforçavam por criar a sua filhinha com ternura e afecto sublimes, mas lhe diziam desde a mais tenra idade que devia aprender a ser mulherzinha... A criança entendia, aceitava o desejo dos pais, e desde os cinco anos que fazia a sua cama, guardava as galinhas, punha a mesa para comerem e olhava um livro para aprender a ler com a mãe. Uma escravatura com perfume de amor e de rosas!

Os pais trabalhavam juntos para enriquecer o património, na quinta que o governo lhes permitira que demarcassem. Um dia chegaram a casa e deram com a criança no terreno a sufocar com sinais de morte. De imediato tomaram a carrinha e correram do Cacuaco até Luanda, passando por nossa casa para orar connosco pela filhinha. Íamos a começar quando esta, num esforço supremo, disse: -“Mãezinha, não recolheste as galinhas!...” – e morreu, minutos depois. Tinha agora seis anos. Aquele “recolheste”, em vez de “recolhi”, oferece um mundo de considerações e respeito, e jamais o olvidaremos. Não foi uma censura a sua mãe: foi o suspiro do respeito infantil, na responsabilidade que não conseguiu terminar! Afinal, ela era escrava do Céu!

As Escrituras dizem: —”Ouvi, filhos, a instrução do pai e estai atentos para conhecerdes o entendimento”( Prov.4:1). Mas aos pais também ensinam que não tratem os filhos de modo que pareçam bastardos. E para cúmulo, na alegria espiritual, não esqueçamos: —”Coroa dos velhos são os filhos dos filhos; e a glória dos filhos são os pais” (Prov.17:6). —O mais rico património da hereditariedade na obediência do amor!

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