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Homenagem e Lançamento do livro de Fernando André
Uma Noite cheia de Emoção
Texto de Manuel Carvalho e fotos de Manuel Ribeiro
Olá, Fernando
Foi com esta saudação que o
Joaquim Eusébio abriu a apresentação
do teu livro. Também assim
será que eu começarei esta carta.
Olha, escrevo-te para te informar
que a tua festa de aniversário esteve
estupenda.
O salão nobre do Centro Santa
Cruz quase rebentava pelas costuras
com tanta gente Estavam lá todos
os teus amigos. Estava lá a tua Comunidade.
Toda aquela gente simples
que foi a tua família durante 25 anos. E que tu amaste. E que te
amou.
Logo no princípio, o padre José
Maria subiu ao palco para, em jeito
de breve oração, nos falar, com o
brilho costumado da sua oratória,
de amor e do pão do espírito. Não
poderia ter sido encontrada melhor
e mais adequada abertura.
De seguida, a Adelaide Vilela, com
um saber de experiência feito, empunhou
a varinha mágica e, como
num fresco gigantesco e colorido, fez desfilar diante dos nossos olhos enternecidos os retalhos
mais relevantes da tua vida e da tua obra, pétalas da grande rosa
do amor desfolhadas uma a uma, sem pressas, pelo serão fora.
Os primeiros a actuar foram o Tony de Sousa e a Inês Gomes
que deram forma e voz a algumas das mais belas letras de
canções que escreveste. Mas que voz cristalina a dessa
senhora! Merecia mais largos voos.
Os teus alunos da escola Lusitana subiram ao palco para
declamar, como quem desfia as contas dum rosário, as
estrofes do teu poema Epopeia Marírima e para testemunhar
publicamente a sua gratidão pelo teu sacerdócio em
prol da língua e da história portuguesas. Nunca mais te
esquecerão, acredito.
Inevitavelmente, alguns dos nossos poetas, esses semeadores
de sonhos e esperanças, também quiseram
professar o seu apreço pela tua obra literária e declamar os
teus versos em rios transbordantes de ternura e de inspiração.
O António Vallacorba, a Dinora de Sousa, o Armandino Santos,
o pastor Marques da Silva, esse eterno jovem, foram os
chamados. E muitos mais seriam se a noite não fosse curta e
o programa ainda longo.

Como se esperava, momento alto da noite foi a intervenção
do Joaquim Eusébio. Com a desenvoltura, a postura cénica e
a verve que lhe conhecemos, falou como ninguém o podia
fazer, de ti, do teu livro Tão Longe e Tão Perto, da tua obra.
E quando, intercalados na trama da sua alocução, declamava
retalhos dos teus poemas, as suas palavras encadeavam-se
como pérolas cintilantes a tilintar pela sala e a incrustar-se para
sempre no nosso imaginário colectivo.
Depois, o grupo Recordações de que tu foste a alma mater,
veio-nos recordar a tua inesgotável alegria de viver. E
encantou-nos, mais uma vez, com os seus cavaquinhos e a sua
eterna música popular. Que continuem, mesmo sem ti, que
não se deixem morrer. Era a maior alegria que te poderiam
dar.
Mas não se ficou por aqui a tua festa. Nunca mais nos
poderemos esquecer dos testemunhos comovidos da pintora Mercês Resende, da Nina, dos teus filhos David e Daniel, da
tua irmã Amélia, da tua sobrinha Guida. Houve vozes
embargadas e olhos orvalhados. Eu próprio, com o pavor que
tenho das grandes multidões, atrevi-me a narrar uma história
da tua vida. Recordaste da cigana que não te dava mais de 25
anos de vida? O que nós rimos juntos, tantas vezes, disso. Foi
esse episódio, que fala dos enigmas da vida e do destino, que
eu quis partilhar com aquela boa gente nessa noite.
Como não podia deixar de ser, o grupo folclórico Praias de
Portugal, que tanto acarinhaste e que ajudaste a criar logo nos
teus primeiros anos em Montreal, veio apresentar-nos algumas
das suas vistosas e coloridas danças e prestar o seu preito a um
dos seus obreiros. Foi bonito este reconhecimento público.
Por fim, a São. A grande diva do fado em Montreal. Esteve,
como sempre, maravilhosa. Fabulosa. A sua soberba actuação
cortou o fôlego à assistência. Não se ouvia zunir uma mosca na
sala. Significativo. Para quê mais palavras?
Para coroar tão belo serão, não faltaram os comes e bebes,
com fartura. Aquela gente, lá para a cozinha, esmerou-se para
nos presentear com as mais deliciosas iguarias.
Podes, pois, dormir em paz. Acredita, no decorrer da noite,
a tua presença era tão tangível que, no auge da festa, pouco
faltou para que surgisses dalgum recanto, com a tua viola na
mão, e nos juntasses ao teu redor, para mais uma das animadas
desgarradas, por que tanto te pelavas, até raiar a madrugada.
E, se o milagre se tivesse produzido, num arrebatamento,
talvez tivéssemos cantado, de mãos dadas, até que, como tu
escreveste, acontecesse o clímax da comunhão:
Começa a ver-se o mundo de outra maneira,
Aprecia-se estar rodeado de povo, É como se nos nascesse um novo dia.

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