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“As Intermitências da Morte”
O alegórico, terno e irónico, em José Saramago
António Vallacorba

SATarde é o que nunca chega e o que chega nunca é tarde – eis como me apraz definir esta minha recente introdução ao génio literário de José Saramago, depois de eu ter andado bastante incerto sobre o que pensar deste nosso laureado Prémio Nobel, tal é a disparidade do muito que se
tem comentado e se comenta, contra e a favor.

“As Intermitências da Morte”, 214 páginas editado pela Editorial Caminho, é o título deste mais recente trabalho literário de Saramago. E, curiosamente, foi o Demétrio Alvarez, ex-funcionário do antigo Gabinete de Emigração e Comunidades Açorianas, que teve a amabilidade de mo enviar directamente da Horta, Ilha do Faial.

Comecei por lê-lo esporadicamente ao princípio, não assim muito curioso, mas talvez mais por deferência ao simpático gesto daquele meu amigo e, vamos lá – é míster admiti-lo – tratava-se de um livro, e os livros são para ser lidos! Pois bem, jamais romance algum, quer de literatura erudita, quer da menos assim, me fez ao mesmo tempo rir e mergulhar em profunda reflexão ante a rica e irónica temática apresentada.

O autor, contudo, dá-nos uma explicação mais filosófica desta obra, quando diz que ela é a “Utilização da alegoria para chegar ao concreto, e a generalidade social para desembocar na singularidade do indivíduo”.

Dizem – e concordo – que Saramago é um escritor difícil de ler, porque escreve praticamente para si apenas. Daí que, a maioria dos leitores menos cultos terá certa dificuldade, tal como tive, com a linguagem e o estilo deste ilustre homem das Letras portuguesas. Mas com um pouco de paciência, de ler e reler, acabamos por adaptar-nos.

Mas afinal de que se trata este romance? – perguntarão vocês.

Sucintamente falando, centra-se à volta de um fenómeno apenas registado num país que se presume ser Portugal, em que as pessoas deixam de morrer, pouco importa o género de doença ou o grau etário.

Imaginem, pois, a reacção da Igreja, do Governo e das companhias de seguros (estão em jogo as intermináveis pensões!), das agências funerárias, dos hospitais e das próprias famílias dos doentes. Tal cenário dá azo à entrada em acção da “Maphia” nacional, a qual, através de montantes específicos, pretende “aliviar” alguma das aberrantes situações – como esta de os inválidos serem enterrados ainda vivos na fronteira do país vizinho (a Espanha). Entretanto, eis que a Morte resolve fazer apenas um certo número de mortes por mês, ou ano. Para isso, passa a escrever uma carta a cada um dos “candidatos”, via postal, informandoos da data em que irão morrer. Só que, por três vezes, é devolvido à procedência esse envelope dirigido a um certo indivíduo.

Trata-se de um violoncelista. E a Morte, irritada com o facto e tomando a figura humana de uma mulher voluptuosa, resolve ir conhecer pessoalmente o sujeito que tanto a intrigara, e, ao mesmo tempo, para lhe entregar a carta mão a mão. O encontro dá-se durante um concerto da pseudo-vítima. Só que, e para sua surpresa, a Morte fica maravilhada com o que viu e ouvi, acabando por regressar a casa...com a carta em seu poder.

Mas o melhor, ou pior, a Morte apaixonara-se! Novo encontro, agora mais intimamente e em casa do violoncelista. Morte com amor se paga. Quão irónico! “A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu”. Maria Alzira Seixo, na revisão que fez deste livro para o Jornal de Letras, Artes e Ideias, de Paço de Arcos, chamou-o de um “romance que é uma maravilha de ler, e é preciso com atenção escutar”.

Depois, se calhar ainda se nos depara entre linhas alguma das perguntas no género daquelas que Giovanni Papini, afamado escritor italiano, levantou no seu livro “O Diabo”, especificamente, da possibilidade de, através dos homens, Satanás voltar ao seu primitivo estado, libertando-se do Mal. Altamente recomendável e constituindo um dos presentes mais sugestivos para esta quadra natalícia.
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