|

Assim vai o meu país
Augusto Machado
Todos nós conhecemos um caso ou outro de situações
menos correctas na administração pública. No
entanto, alguns há que, pela perplexidade que causam,
merecem a nossa crítica para que eventualmente sejam
corrigidos. Imaginem, por exemplo, um centro de saúde
com regras, mas que ninguém as cumpre.
Os funcionários, como protesto às reformas que o Governo
quer implementar, trabalham sem motivação e os
utentes, uns por falta de educação e por falta de respeito
por quem tente ajudá-los, comportam-se como se estivessem
numa praça pública a pregoar. A vozearia é ensurdecedora.
Às vezes o próprio médico chama várias
vezes pelo nome do próximo utente mas ninguém ouve.
As pessoas gostam de falar. Na sala de espera existem
revistas e alguns jornais, mas ninguém lê. Esta gente
gosta é de falar – mesmo sem saber do que fala. E cada
um tenta sempre falar mais alto do que o outro.
Mas para complementar esta história, infelizmente real,
uma grande parte dos funcionários deste centro está
de baixa (maioritariamente psiquiátrica, daquela que dá
para sair de casa) e as necessidades de pessoal são colmatadas
por contratados a prazo fora do âmbito da Função
Pública. Realmente trabalhar num ambiente assim
não deve ser fácil. Tudo se complica quando não há regras,
nem disciplina, nem vontade de corrigir o que vai
mal.
Infelizmente, esta situação não existe apenas neste
centro de saúde, é um comportamento generalizado que
nos dá a ideia negativa da Função Pública deste país. E
o pior é que muitas vezes paga o justo pelo pecador. E
quem será o pecador neste caso? Os médicos? Os enfermeiros?
O pessoal administrativo? A chefia do centro?
Claro que alguém é culpado: a direcção por não querer
incomodar-se e, talvez por não ter características adequadas à liderança neste tipo de situações, talvez por
querer evitar o conflito ou por, de facto, não valer a pena
fazer nada, (esta última hipótese é a atitude mais comum)
e a verdade é que existe de um modo geral a ideia
de não interferir com o que vai mal e daí a “rebeldia”
total.
Segundo especialistas em reestruturação da Função
Pública, para que as coisas mudem é necessário alterar
as regras do jogo: capacidade de liderança das chefias e,
sobretudo, apostar na formação dos funcionários, incentivos
e produtividade. Mas incentivar não é o suficiente. É preciso treinar as pessoas a comportarem-se de tal
modo que consigam o melhor possível na sua profissão. É bom recordar a máxima que diz: “as pessoas não se
comportam como nós gostaríamos mas antes como nós
as incentivamos a comportar-se”.
Assim, mais do que modificar regras de funcionamento
como o sistema de avaliação de desempenho, a mobilidade,
etc., é preciso ter a consciência de que essas alterações
só produzirão efeitos caso, primeiro, as pessoas
saibam como mudar o seu comportamento para melhor
e, segundo, tenham vontade de o mudar. Depois temos
os princípios básicos da motivação: 1º) as pessoas só se
esforçam porque querem; 2º) as pessoas só escolhem
esforçar-se se isso for melhor para si mesmas do que o
contrário.
Os funcionários públicos têm que se habituar às novas
realidades: já não existem empregos garantidos para a
vida. E o Governo está determinado a introduzir mudanças
radicais no sector. É evidente que não podemos voltar
aos tempos de exploração de trabalho, mas os portugueses
devem olhar para a produtividade e mobilidade
de outros trabalhadores em países desenvolvidos.

 |