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Do tempo e do homem
Sabe melhor o fruto do nosso labor
António Vallacorba
Tenho estado a ver se consigo acabar o meu próximo livro, mas a verdade é que desde há tempos que vem sendo impossível acrescentar-lhe palavra
alguma mesmo durante uma ou outra hora de ócio – bem poucas, aliás, nesta altura do ano.
Não obstante, quem é que no seu perfeito
estado de espírito se vai confinar diante
de um ordinador quando lá fora o tempo
se mostra assaz aprazível?!
O verão, conquanto relativamente curto, há-se mostrado bem ao meu gosto, de forma a proporcionar-me, entre outras actividades, o simples prazer de exercitar-me à volta do meu quintal, desnatando
a vinha ou os tomateiros, limpando as couves, as nabiças e as alfaces de uma ou outra lesma (mas antes esburacadas do que polvilhadas de químicos!).
Apanho um tomate e um pepino, abro-os, acrescento-lhes um pouco de sal para seguidamente os degustar numa mesa da periferia, ao cheiro das dálias e do manjerico,
da exuberância das hortênsias e sob a ameaça das abelhas, enquanto, de casa, me chegam os acordes da “Pastoral”,
de Beethoven.
Depois, fico para ali a extasiar-me perante
a generosidade da Natureza, ao mesmo tempo implorando a Deus que me privilegie com mais algumas semanas desse tão falado aquecimento do globo, a fim de me fazer esquecer deste clima de nove meses de inverno e de três meses de mau tempo que subitamente deixou de estar na moda.
Ah, que bom se pudéssemos desfrutar de tudo isso o ano inteiro!
Infelizmente, e contra as previsões nefastas
dos cientistas preocupados com as questões ambientais, o Inverno, aqui, sempre se faz sentir no máximo da sua força; mas quando assim não é, porém jamais
deixamos de contemplar a nudez da terra, estéril de igual modo mesmo perante
condições menos austeras.
Depois, que iremos fazer quando o nosso
solo nada produz?
Ficamos dependentes dos produtos que vêm dos Estados Unidos, México, América
do Sul, Austrália, Europa, África do Sul, sabe Deus em que condições, mas certamente não as nossas.
Nos países de origem, modificam a genética
de muitos desses produtos, tratam-nos de modo a acelerar o seu crescimento e/ou simplesmente não seguem as normas
que eram para desejar.
É tudo feito à pressa e em moldes desumanos.
Ultimamente, a China tem sido alvo de denúncias na qualidade de muitos dos seus produtos, não necessariamente todos
na área da alimentação, mas certamente
prejudiciais do mesmo modo: roupas
infantis, brinquedos, rações para animais,
pneus, medicamentos, pastas de dentes, etc.
E nós, os consumidores, para pouparmos
um ou outro dólar, vamos nesse “jogo”
das multinacionais ou daqueles que procuram lucros fáceis.
Paralelamente, há dias foi detectada alguma
contaminação em cenouras importadas,
não se sabe donde, por uma das maiores cadeias de supermercados da América do Norte.
Sábado passado, o jornal The Gazette dava conta de uma falsificação de vinhos na Itália.
Esses são alguns dos casos que vão sendo
descobertos. E aqueles que não são?
Com licença, vou abrir uma lata de atum para o jantar.
É de marca portuguesa, mas no rótulo e em letras minúsculas, diz que o produto é feito na Tailândia.

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