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À procura de vida melhor
Augusto Machado

SANoutros tempos os trabalhadores portugueses emigravam porque viviam miseravelmente mal no país que os viu nascer. Havia mesmo a frase denunciadora que dizia: “Neste país de miséria trabalham 10 para cem, os dez trabalham com fome e os 90 passam bem”.

Hoje, isso, já não é verdade; com algumas excepções, no Portugal moderno, só passa fome quem não quer trabalhar. E trabalho não falta o que falta é vontade de trabalhar. E aqueles que procuram trabalho, naturalmente procuram- no onde lhes pagam mais - que actualmente é no país vizinho. A Espanha, que outrora era apenas um ponto de passagem para os nossos compatriotas, (com passaporte de coelho, os tais passaportes falsos) que procuravam melhor vida fora de Portugal. tornou-se, nestes últimos anos, num destino de emigração portuguesa. As estimativas recentes apontam para 100 mil, embora, oficialmente, estejam registados entre 70 a 80 mil – a maioria trabalha na construção, um dos sectores em Espanha com mais dinâmica na última década e que continua a atrair mão-de-obra lusa. É na região do País Basco onde estão registados e trabalham mais portugueses.

E a razão de terem escolhido a Espanha para trabalhar é quase sempre a mesma: “Aqui ganha-se mais que em Portugal”, dizem. Os salários mais altos em Espanha seduzem os trabalhadores portugueses. É de notar que em funções equivalentes em Portugal lá ganham cerca de 50 a 80 por cento mais e com excepção à habitação, tudo é mais barato no país vizinho.Mas nem tudo são rosas, muitos, particularmente nas zonas
fronteiriças, optam por passar os fins-de-semana com a família em Portugal. De regresso ao emprego, saem de casa no domingo à noite, ou na madrugada de segunda, viajam até às obras em Espanha onde vivem, na sua maioria, em alojamentos prefabricados, mesmo ao lado da obra. E é com trágica regularidade que, neste ir e vir, acontecem muitos acidentes de viação em que alguns ficam pelo caminho. São as longas viagens, o cansaço do trabalho e o adormecer ao volante a causa da morte de muitos destes emigrantes nas estradas espanholas e portuguesas que têm sempre pressa de chegar o mais rápido possível a casa e ver a família.

Outros entram nas redes de exploração de mão-de-obra. Contratados, trazidos para Espanha, trabalham em péssimas condições, sem vínculos certos, contratos ou até certezas de pagamentos. “O problema é que os trabalhadores portugueses estão a receber menos que os espanhóis, o que cria uma concorrência desleal”, afirmou António Alvarez, da UGT espanhola.

Segundo o sindicalista, os trabalhadores portugueses ilegais que se encontram na Galiza recebem um salário de 800 euros mensais para um ordenado equivalente de mil euros de um trabalhador espanhol. “É certo que, em Portugal, ele apenas receberia 600 euros, e isto está e criar um mal-estar –, porque os trabalhadores espanhóis sentem-se descriminados”, acrescentou o espanhol.

O acordo colectivo de trabalho para a construção civil na Galiza prevê 40 horas semanais, a cumprir de segunda a sexta-feira. Os salários mensais variam entre os 606 euros pagos a um aprendiz e os 1.321 euros par um trabalhador especializado. Os próprios sindicatos reconhecem que a situação dos trabalhadores portugueses em Espanha está a melhorar e que tem aumentado a fiscalização e a crescente colaboração entre as autoridades dos dois países no combate às redes ‘mafiosas´ que operam no tráfico ilegal de trabalhadores.
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