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Tourada à corda em Cambridge, Ontário...
Natércia Rodrigues

SAO povo Terceirense é um apaixonado pela festa brava e segundo alguns historiadores, foi gosto legado dos castelhanos quando estiveram na ilha Terceira no tempo da dominação filipina. A tourada à corda é uma diversão tão arreigada na ilha Terceira que poder-se-á dizer ter influenciado e moldado a índole do povo.
Lá nas nossas terras, muito bem... Mas em terras canadianas?

Sim, também há as touradas à corda, mais exactamente nos arrabaldes da cidade de Cambridge, na província de Ontário. E o mais interessante é que foi o sonho de uma jovem transformado realidade. Melissa Marques tinha dezasseis anos quando ficou muito enferma.

Esteve muito tempo hospitalizada e estava a família muito atormentada com a filha, pois os doutores não davam
muito tempo de vida à jovem. Teve ela um sonho onde se via implicada numa tourada a arranjar dinheiro para ajudar o hospital das crianças onde se encontrava. Falou com os pais e disse-lhes que gostava de concretizar
aquele sonho. Os pais, vendo o grande entusiasmo e inspiração da filha, asseguraram que se ela ficasse boa fariam-lhe a vontade. E assim foi. Melissa, ao fim de algumas semanas, foi para casa e estava boazinha. Seus pais, Fernando e Ana Marques despacharam-se a tratar da coisa o mais rápido possível. Compraram o terreno e foram à Califórnia comprar os primeiros touros, ou fosse, entre touros e vacas, 67. Hoje, têm 127 animais.

Fernando saiu da Terceira, mais precisamente da freguesia de S. Brás, com 11 anos de idade. Apesar de gostar
muito de touradas, não sabia lidar com os animais. Ao meter-se nesta grande aventura, pediu assistência àqueles que tinham experiência no assunto, e assim foi. Todos sentem uma grande alegria em assistir esta família.

A Ganadaria Olé Toiro Inc., e Fernando agradecem à mulher e à filha todo o trabalho, dedicação e amor à Ganadaria, assim como a todos os amigos que o ajudam. Há sete anos que começaram esta lide e há cinco que fazem touradas à corda. Arranjar as licenças não foi coisa fácil, pois o governo do Ontário não queria aceitar a ideia e só as conseguiram ao fim de mais ou menos três anos, depois de ter havido uma tourada com a presença de representantes do Governo. Sábado, dia 25 de Agosto, foi a inauguração da segunda arena pelo Padre Cunha, de Cambridge, e no ar ficou a promessa que uma terceira arena estará pronta em breve.

A família Marques faz muitas doações: hospital das crianças, Red Cross, os vários clubes portugueses da área e às diferentes festas portuguesas. O último dom, de sessenta mil dólares, foi aos bombeiros, à Câmara e aos pobres da cidade Arthur.

Em cada corrida, Melissa, Ana e Fernando descem à arena para agradecer e desejar boa sorte a todos os que vão tourear. Com um investimento de mais de $700,000, vêem o sonho da filha realizado e todos três se sentem extremamente felizes.

Este Verão fizeram 16 touradas. A tourada do fim-de-semana de 25 e 26 de Agosto foi realmente a “festa brava”.
Espectáculo divertido, os foguetes a estrepitarem, dezenas de homens descontraídos a se dispersaram à frente do touro, e por vezes o touro quedava-se estático, dir-se-ia estátua fundida em bronze. Ao seu redor um vazio, riscado lá de vez em quando por aqueles homens atrevidos que cruzavam na sua frente. São no entanto os “pastores” que manobram o touro de forma a evitar que salte fora da arena. Vestem camisa branca, calça cinzenta e sapatos de lona.

Alguns cantores que participaram. Nancy Costa, a donzela que ganhou um prémio há pouco, Daniela Santos
uma garota com 7 anos e que abriu o espectáculo entoando os hinos português e canadiano e a canção Olé Toiro, com a letra feita à ganadaria. Veio depois Mário Marinho, o grande cantor do Ontário e grupos de amigos
que tocaram acordeão, flautas e outros instrumentos e entoaram várias cantigas ao desafio.

Foi um fim-de-semana muito alegre, com muita música, boa comida e bebida, muita amizade e boas corridas. É verdade que no sábado choveu muito e isso complicou o toureio, mas no domingo em contrapartida esteve um lindo dia.


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