|

África, um continente esquecido
Augusto Machado
A comunicação social mundial normalmente só dá importância
ao que vende. A este propósito quem não
se lembra do filme “Os homens do Presidente” quando os
editores do Washintgon Post discutiam a agenda do dia
seguinte. Todos enumeravam os temas que tinham. Pouco
ou nada merecia relevo, no que à actualidade fora dos
Estados Unidos dizia respeito, se não estivesse envolvido
algum americano.
Os dramas do povo africano foram sendo esquecidos
pelas redacções à medida que se banalizaram os genocídios,
a fome e a sida. Os telejornais e a imprensa escrita
dão conta do fenómeno, mas ninguém abre noticiários
com mais uma catástrofe num país africano.
Estrelas pop e actores de Hollywood viram-se para os
dramas de África com espírito missionário e com eles arrastam
holofotes dos media para um continente esquecido.
George Clooney sensibiliza para o genocídio no Darfur,
Angelina Jolie ajuda refugiados no terreno e Mia Farrow
oferece a sua liberdade pela de um rebelde sudanês. Mas
nem todo o voluntarismo é bem visto. A adopção de uma
criança do Malawi por Madonna foi alvo de críticas.
África é o continente onde os números de pessoas a
sofrer e a morrer falam por si: o Alto Comissariado das
Nações Unidas para os refugiados, liderado por António
Guterres, contabilizou 2,4 milhões de refugiados no ano
passado. Ainda assim, menos 133 mil em relação a 2006,
graças ao regresso a casa de 319 mil, em especial para
Angola, Burundi, República do Congo, Libéria e Sul do
Sudão.
Mais de 90% dos novos casos de malária dão-se na África
subsariana. Uma em cada 20 crianças até aos cinco
anos de idade morre de malária o que nos dá um número
assustador de cerca de um milhão de crianças por ano que
perdem a vida.
Estima-se em 39,5 milhões o número de infectados com
SIDA em todo o mundo, dos quais 25 milhões em África. É de notar que só em 2006, 2,8 milhões de adultos e
crianças foram infectados com o VIH e 2,1 milhões morreram
com esta doença.
A fome é outro problema gravíssimo em África; este
continente recebeu em 2006 a maior fatia (66%) do bolo
da assistência do Programa Alimentar Mundial (PAM).
Os países mais necessitados foram: Sudão, Etiópia e
Quénia. Fontes de informação: ACNUR, Malaria Fundation
Internacional, Unaids, PAM. Graças a estes corajosos actores de Hollywood e umas
tantas estrelas pop que hoje envolvem-se na luta contra o
esquecimento a que são votados esses povos, e que conseguiram
voltar a colocar no mapa informativo as atrocidades
que aí ocorrem.
Uns fazem-no por razões altruístas, outros fazem-no
por promoção pessoal. Seja qual for a razão, a verdade é
que conseguem contribuir para uma chamada de atenção
‘obrigando’ os políticos mundiais a fazerem algo por povos
que não têm petróleo e onde os interesses monetários
são menos evidentes do que no Iraque ou no Koweit. É certo que nem sempre o fazem da melhor maneira, já
que contribuem, às vezes, para o alastrar da corrupção
nesses países. Dinheiros que são angariados para fazer
face à fome e miséria acabam, infelizmente com frequência,
nas mãos dos senhores da guerra apoiados por
governantes corruptos. É o preço a pagar neste mundo
imperfeito.

 |