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Media McCann
Edouardo Cintra Torres, Jornal Público

SAOs dados mediáticos foram lançados quando os pais de Maddie McCann telefonaram às 22h11 para a Sky News e só depois, às 22h40, para a polícia. Pela primeira vez na história, um caso de “interesse humano” de gente anónima tomaria uma feição mundial.

O governo britânico, formal ou informalmente, envolveu-se profundamente no assunto pela via mediática desde a primeira hora, o que é inédito num caso de polícia como este. Clarence Mitchell, conselheiro governamental mediático ao mais nível, foi enviado pelo Foreign Office para assessorar os McCann em Lagos; os McCann tiveram contactos com o governo britânico ao mais alto nível; Gordon Brown, herdeiro e sucessor de Blair, tratou do assunto em privado. Mitchell foi e é director da Media Monitoring Unit, unidade de informação criada por Blair para detectar informações e tendências nos média mundiais. Mitchell não é da estrutura consular, e a criação duma estratégia mediática global por um conselheiro de topo do governo não é exactamente o que se obtém num consulado.

Os McCann obedeceram a uma estratégia profissional no “timing”, nas “photo opportunities” e “sound-bites”, nas reuniões, na globalização. Hoje parece-me que foi a intervenção do governo britânico que empolou o caso McCann; foi dele ou de alguém a ele ligado, aparentemente, que partiu a estratégia formal (governamental) ou informal (por interesses pessoais de algum ou alguns dos seus membros) de transformar este episódio num caso mediático global. Lançados os dados mediáticos, não se voltou atrás por uma razão simples: o caso McCann é fascinante. E o fascínio aumenta, não diminui, com o rolar do tempo. Fascina pelo envolvimento de 10 Downing Street. Fascina pelos nós narrativos que se foram atando e desatando. Pela evolução da investigação. Pelo acompanhamento mediático. Pela resposta policial à estratégia mediática britânica. Fascina porque é mais uma tragédia que se desenrola no espaço público. Tem as características das tragédias em género vernáculo de realidade: poderia ter-se evitado; tem protagonistas e personagens secundárias interessantes; tem peripécias, mistérios diversos. Ora, sendo uma tragédia, a produção de informação foge em boa parte ao controle dos critérios jornalísticos. Torna-se difícil aos jornalistas - mas decerto possível -acautelar critérios jornalísticos para uma narrativa incrível que se desenrola (ou não) à frente dos seus olhos.

O governo britânico e os McCann construíram a tragédia no espaço público, fizeram dum caso pessoal um caso público e global e o resto veio em cascata. Como esperar que as TVs portuguesas não entrem em directo mesmo que não haja nada de novo quando ao lado dos repórteres está uma equipa de 33 pessoas da Sky e uma de 18 da BBC - para não falar dos outros?

As críticas à atenção mediática deste tema tratam os media em bloco, o que deveria envergonhar quem as faz. E são críticas que pressupõem que só casos políticos, económicos, desportivos ou artísticos devem ser considerados de interesse público.

Isso não justifica os excessos mediáticos habituais (e não só na TV), como a imprevidência com boatos e acusações, o patriotismo ridículo de repórteres […] ou o tempo exagerado para nada se dizer (e o governo de Londres, em transição de Blair para Brown, e o de Lisboa, em viragem para uma opinião pública negativa, agradecem a agenda mediática McCannizada). Enfrentando a dificuldade em obter-se informações, a TV também proporcionou informação normal sobre o caso, com rigor e interesse jornalístico, e debates interessantes no Clube de Jornalistas (RTP2), na SIC e no Prós e Contras (longo demais). Neste, o director nacional apareceu, qual deus ex-machina, em directo e nos ecrãs ao alto, para pela primeira vez fazer um ponto de situação correcto e informativo que há muito era devido.

Entretanto, como tantos referem, a menina passou ao segundo plano. Onde está Maddie? Viva ou morta? Morta, é quase certo. Mas neste mundo sem princípio nem fim, sem tempo nem lugar, ela está ao mesmo tempo viva e morta: a pobre criança transformou-se num simulacro que paira e perpassa pelos ecrãs e pela imaginação de milhares, de milhões de seres humanos.

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