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Bem-estar e longevidade
Augusto Machado
Há quem diga que o homem leva metade da sua vida
a prejudicar a saúde e outra metade a tentar
recuperá-la. E, como sabemos, na grande maioria dos
casos, é irremediavelmente tarde demais recuperar o
que já se perdeu. Isto acontece com muitos imortais que,
durante os seus verdes anos, os excessos fazem parte
das diferentes proezas que, uns mais do que outros,
arriscamos – e o que seria a vida sem a audácia de
arriscar?
Durante trinta e dois anos trabalhei com um colega,
por sinal pessoa simpática, educadíssima e, sobretudo,
um homem de uma lealdade suprema. Lembro-me deste
ex-colega e embora estejamos retirados da vida activa,
para sempre seremos amigos enquanto vivermos.
Jean era o membro da equipa que nos salvava nos momentos
mais deprimentes: quando as coisas no trabalho
não corriam da melhor maneira, lá estava ele com o seu
bom humor aalegrar e a animar o pessoal. Mas Jean tinha
um problema: era obeso e gostava de comer. A sua
boa esposa, cuidadosamente, cinco dias por semana,
preparava-lhe o lanche conforme as ordens da dietista.
Os dias, as semanas, os meses, foram passando e o marido
nada de perder peso, pelo contrário, o peso aumentava.
Discutiam o assunto, ele alegava que era a balança
que não estava boa ou inventava qualquer outra desculpa.
Até que um dia a esposa telefonou-me a perguntar se
eu sabia se o Jean comia o lanche que ela lhe preparava em casa – respondi-lhe que não sabia visto que o horário
das nossas refeições era diferente.
A esposa, preocupada com a saúde do marido, um dia,
depois dele sair para o trabalho, sem ele se aperceber,
meteu-se no carro e seguiu-o até ao McDonald´s mais
próximo. E o que ela suspeitava aconteceu: o lanche que
ela tinha preparado com cuidado e carinho foi direitinho
para o caixote do lixo em troca de dois Big Mac´s. Jean
foi confrontado pela esposa e pela dietista, reconheceu
o erro e, a partir daí, deixou de parar no McDonald´s.
Isto aconteceu nos anos 70. Hoje, Jean, é um homem
feliz, reduziu o peso de 130 quilos para 70. Aprendeu a
viver uma vida mais saudável. Agora, e sempre como o
habitual bom humor, só pensa em chegar aos 100 anos
de idade.
Mas vamos ao tema desta semana que tem a ver com o
nosso bem-estar e longevidade. Actualmente, grande
parte da investigação sobre a longevidade centra-se em
factores como alimentação, bebida, tabaco, actividade
física, qualidade do ar e da água, genética, entre outros.
Existe, no entanto, um outro factor negligenciado (em
especial porque não dá dinheiro a ganhar a ninguém),
que é responsável pela capacidade de os nossos idosos
viverem com qualidade – interacção social e respeito
pelos mais velhos.
Os povos do mundo com alguma longevidade notória
são os Hunza nos Himalaias, os Villacamba no Equador,
os Abkhasia no Cáucaso e os habitantes de Okinawa no
Japão. Em todos estes povos existem imensos centenários
em excelente forma física e com capacidade cognitivas
notáveis.
Estes idosos além de terem hábitos alimentares bastante
semelhantes, nestas culturas as pessoas idosas são altamente
respeitadas, mesmo reverenciadas, e envelhecer é sinónimo de sabedoria e estatuto, mais do que o
dinheiro ou a posição social.
Em contraste notório com a nossa cultura, onde tudo se
faz para não se envelhecer e onde os mais velhos são
frequentemente abandonados, ridicularizados e tratados
como cidadãos de segunda classe por já não possuírem
o que outrora tinham: o encanto da juventude,
aquele aspecto de ´beautiful people´ que aparece nas capas
das revistas e todos tentam imitar.
Dá que pensar...

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