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Saúde – as longas
listas de espera
Augusto Machado
Continuam as longas listas de espera para quem precisa
de uma consulta ou de uma cirurgia. Só para
dar um exemplo, em oftalmologia existem cerca de cem
mil doentes è espera de uma consulta nos hospitais públicos
e trinta mil aqueles que aguardam vez para serem
operados – dos quais 24 mil são idosos a necessitar de
cirurgia às cataratas.
Certamente, para aqueles que têm a carteira bem recheada,
para esses, não há lista de espera! Aqui o sol não
brilha igual para todos. Quem tem dinheiro facilmente e
com celeridade resolve os problemas de saúde nas clínicas
e hospitais privados.
A Inspecção-Geral da Saúde (IGS), num relatório entregue
ao ministro da Saúde, admite que os cuidados
públicos de saúde, especialmente em oftalmologia, deixam
muito a desejar e a situação é bastante preocupante.
Palavras que não diminuem o sofrimento de quem está
a perder a vista e à espera duma consulta uma eternidade.
Entretanto o ministro da Saúde, Correia de Campos,
acusa os especialistas de falta de produtividade individual
e que, segundo ele, “bastava que fizessem mais
meia consulta e mais 0,6 cirurgias por dia para resolver
o problema das listas de espera”. É de salientar que segundo
o mesmo relatório, há hospitais públicos onde a
média de cirurgias feitas por cada oftalmologista é inferior
a uma por semana e outros em que os doentes esperam
pela primeira consulta da especialidade há mais de
600 dias. A Inspecção encontrou pedidos de consultas
que remontam a Janeiro de 2005. Mais: o relatório revela
também que os níveis mais baixos de produção, os
valores mais elevados de doentes em lista de espera e
os tempos de espera mais dilatados estão nos hospitais
onde os recursos humanos são mais elevados e o exemplo é a Grande Lisboa, onde estão mais de 50% dos oftalmologistas
do Serviço Nacional de Saúde e onde a
produção destes médicos representa apenas um terço do
total das consultas e um quarto das cirurgias que se fazem
em todo o país. É mais um exemplo onde a região
de Lisboa e do Vale do Tejo continua a ser favorecida
em detrimento do Norte e do Interior do país.
Num dos hospitais do região Norte, a IGS descobriu
que o bloco operatório foi usado apenas metade do tempo
em que esteve disponível para as cirurgias oftalmológicas
por falta de especialistas. Num do Centro, as
consultas para doentes com glaucoma estão com dois
anos de atraso.
Ora isto acontece porque no país existem dois sistemas
de saúde: o público e o privado. Há muitos médicos
(talvez a maioria) a trabalhar nos dois sistemas e não
há, adianta a IGS, “um controlo eficaz e uma melhor
gestão dos recursos particularmente, para o controlo do
cumprimento de horários e da acumulação de funções
(públicas e privados) conflituosas ou concorrentes”.
Para quem viveu no Canadá antes da entrada em vigor, ‘l’Assurance Maladie’ em 1970, isto é um problema
déjà-vu; ou tínhamos que ter um seguro de saúde (para
a maioria era a ‘Blue Cross’) ou então íamos para a lista
de espera. Porém, em boa verdade se diga, nunca as
listas de espera nesse país foram tão longas como aqui
na ‘Terra Mãe’.

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