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Segredo de Polichinelo
Raul Mesquita
Senhor Eduíno Martins, Editor do Jornal A Voz de Portugal.
Na edição do dia 3 de Outubro do vosso Jornal salienta-se um encontro
da comunidade transmissora da Língua e Valores Portugueses com o Senhor Cônsul-geral de Portugal em Montreal, Dr. Carlos de Oliveira,
que me impulsiona a sair duma reserva jornalística para, com o seu assentimento e autorização
de difusão, me pronunciar sobre aquilo que desde sempre, foi um segredo de Polichinelo. Como já depreendeu, refiro-me aqui ao reconhecimento ou não em Portugal, dos diplomas obtidos no estrangeiro e emitidos pelas escolas portuguesas.
Ora, tenho certas dificuldades em compreender o efeito surpresa que as declarações do Senhor Cônsul-geral tenham produzido nos presentes e em todos quantos se digam perplexos
por tais afirmações. O que na realidade pode pasmar, é o terem propagado — sem questionamentos — durante tantos anos, testemunhos e legitimações falsas, abusando mesmo da teatrologia para manifestações que interpelam a nossa capacidade
de racionabilidade.
A decisão do Dr. Carlos de Oliveira veio restabelecer sem equívocos o acesso das pessoas interessadas ao conhecimento
da realidade.
Na verdade, sempre os detentores de certificados de ensino de Português no estrangeiro que regressaram a Portugal, se viram obrigados a fazerem testes de avaliação sobre conhecimentos
obtidos, a fim de poderem serem incorporados nos diferentes níveis de ensino no país. O que está certo. Basta lembrar que o mesmo acontece por estas paragens e em outros
países do mundo, onde o reconhecimento de diplomas não passa como “une lettre à la poste”. Que o digam tantos médicos — entre outros diplomados — estrangeiros, que se batem pelo reconhecimento de equivalências e por autorizações
de exercerem as suas profissões.
Por outro lado, e referindo-me apenas a disciplinas que considero essenciais na aprendizagem como, o Português, a História e a Geografia nacionais, por muito esforço que se faça, diversificando e sintetizando essas matérias, nunca será possível transmitir, nas curtas horas das aulas dos sábados, os conhecimentos que logicamente se devem esperar do ensino
semanal em Portugal. O que me parece importante é de procurar incutir nos jovens o máximo de conhecimentos possíveis,
para os ajudar a se inserirem no mercado do trabalho e na sociedade, colocando-os numa posição que lhes permita desenvolver e singrar, tirando o melhor partido dos sacrifícios
que fazem de prolongar a semana normal de estudos e assim corresponderem aos familiares, que habitualmente, — e esta “surpresa” parece confirmar — são mais destinatários dos efeitos do que participantes nas causas.
O paradoxo neste processo, é a existência duma Coordenadora
do Ensino, senhora muito simpática estabelecida em Toronto,
cuja presença não se coaduna com a função, uma vez que o ensino local não é reconhecido. Como tal, inexistente. Então, a Coordenação serve a quê?
E, Senhor Editor, o texto publicado faz referência a supostos
auxílios recebidos de Portugal. Há anos atrás era costume receber-se o refugo dos livros que já não se utilizavam em Portugal e numa média de uma gramática ou livro de leitura para dois ou três alunos e que mesmo assim, deixaram de serem enviados, tal como alguns subsídios financeiros que eram distribuídos aqui de forma “muito caseira”.
Quanto às Acções de Formação, devo confessar que assisti a uma, onde a teorização se sobrepôs às realidades que enfrentamos
no estrangeiro e que são totalmente desconhecidas
pelos formadores que nos visitaram. Não temos os meios nem os materiais pedagógicos que seriam desejados.
Numa outra ordem de ideias mas igualmente ligada com o ensino, apraz-me salientar as comemorações do 5 de Outubro que se fizeram por todo o país e onde em Lisboa, o Senhor Presidente da República, hasteou na janela da Câmara Municipal
a Bandeira Nacional, no mesmo local onde em 1910 José Relvas proclamou a República.
Outras manifestações tiveram lugar também no Porto, e em Famalicão, o Museu Bernardino Machado, tem várias iniciativas
comemorativas desta efeméride a provar então, e isso satisfaz-nos de sobremaneira, de que estas datas continuam a ser importantes e respeitadas não só pela Presidência — o Dr. Cavaco Silva invocou a importância da educação no ideário republicano — como pelo Governo, — pelo qual se expressou o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Jorge Lacão, anunciando que o Governo quer escolas com mais valores republicanos, frisando que “educar
para a cidadania implica pôr em evidência os melhores exemplos do passado”.
Os mesmos ideais que me animam. Grato Senhor Eduíno Martins pela atenção e espaço concedidos.

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