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Adolescentes

Augusto Machado

SADez de Outubro foi o dia mundial de saúde mental. Um problema que afecta muitos jovens. A adolescência constitui, para rapazes e raparigas, uma verdadeira revolução. Deixa-os confusos perante as mudanças que se multiplicam, impelindo-os na busca de uma identidade.

Percurso este que muitas vezes faz-se de sobressaltos, de sentimentos contraditórios, que os pode empurrar para um beco (às vezes) sem saída – o suicídio.

Na sua maioria não têm vontade de morrer, mas quando o sofrimento se torna insuportável – este pode ser o dilema que vai na alma de um adolescente que se tornou violento consigo próprio, auto-mutilando-se ou até mesmo tentando o suicídio. Esta ideia de pôr fim à vida passa, pela cabeça de rapazes e raparigas ao encararem o tumulto da adolescência. Segundo um estudo apresentado num congresso pelo psiquiatra, Daniel Sampaio, quase metade dos adolescentes de Lisboa já teve ideias suicidas. Jovens entre os 15 e os 18 anos de três escolas secundárias da capital, estiveram envolvidos neste estudo o qual o resultado foi preocupante: é que, além dos 48,2% que pensaram em suicídio, sete por cento tentaram mesmo acabar com a própria vida, enquanto outros 35% já se tinham mutilado através de cortes nos pulsos e diversas lesões na pele.

São gestos sintomáticos de uma inquietação interior, sinais de uma dificuldade crescente em atravessar a adolescência. Sinais de um mal-estar que os empurra para um comportamento de risco, desde o abuso de substâncias tóxicas, ao excesso de velocidade, e entre outros, a comportamentos de auto-mutilação e ideias suicidas.

A adolescência é, sabemo-lo, uma altura da vida sempre perturbada e perturbadora. Acumulam-se mudanças físicas, emocionais, psicológicas e sociais. Acrescem as expectativas escolares, sociais e familiares, nem sempre muito reais. Para além disso o adolescente recebe da família, dos amigos e da sociedade mensagens absolutamente contraditórias, que o confundem. E quando as coisas correm mal, na escola ou em casa, o adolescente tende a exagerar. Sente que a vida é injusta quando não corre ao ritmo dos seus desejos. E vive a decepção de uma forma extrema, havendo o perigo de criar um forte sentimento de rejeição que o pode levar a desencadear comportamentos de risco e alimentar ideias agressivas – ou até o suicídio.

Presos entre sentimentos de revolta e o desejo de que os pais os ajudem, rapazes e raparigas buscam a sua identidade.

A passagem de menina a jovem mulher dá origem a um ritmo biológico novo, misterioso e inquietante. O mesmo adquirindo muito cedo conhecimentos sobre o seu corpo, as adolescentes podem ficar emocionalmente
transtornadas com as modificações a que assistem. É nessa passagem que emergem os primeiros comportamentos de auto-mutilação. Está provado que, enquanto os rapazes exteriorizam a violência, envolvendo-se em confrontos ou enveredando pelo consumo de drogas, as raparigas viram a agressividade contra si próprias.

Dois dos principais distúrbios alimentares mostram isso mesmo: a bulimia e a anorexia. Sete vezes mais frequente no sexo feminino, a bulimia é uma verdadeira tortura infligida ao corpo e à mente: a adolescente, obsessivamente, ingere grandes quantidades de alimentos, depois força o vómito para não engordar e finalmente debate-se com o profundo sentimento de vergonha e arrependimento. A mesma lógica aplica-se à anorexia: priva-se de alimentos para manter uma figura de algum ídolo ou para escapar a uma feminidade indesejável.

Continuação na próxima edição.

 

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