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Saber não ocupa lugar
Victor Hugo

SACom as novas tecnologias podemos afirmar que quem não sabe utilizar o computador é quase analfabeto. Muito distante vai o tempo em que os estudos eram um privilégio dos mais afortunados. Recordo que na minha infância, os pais diziam que mandavam estudar os filhos para não trabalharem, pois o trabalho era só para as pessoas do campo. Nos anos 50 e 60, a grande preocupação era a luta pela sobrevivência e, antes dos estudos, havia a necessidade de comer, pois nesse tempo as famílias consagravam a quase totalidade dos seus rendimentos à alimentação.

Com a escolaridade obrigatória, toda a gente começou a estudar e os doutores, que eram uma espécie rara, hoje muitos deles vão para o McDonald’s.

Tal como outros da minha geração, um dos erros que cometi ao chegar ao Canadá foi não ter ido tirar um curso universitário, mas nesse tempo a preocupação era sustentar a família e só quando precisei vi a falta que cometi, mas já era tarde. No entanto, ao constatar a minha ignorância em muitas coisas, isso levou-me a fazer alguns estudos e a querer continuar a aprender, pois verifico que quanto mais aprendo, menos sei. Algo que me tem sido muito útil nas viagens que já fiz é de poder comunicar em várias línguas.

Mas toda esta conversa vem a propósito da polémica que se tem levantado na Comunidade Portuguesa acerca dos estudos da língua portuguesa, mais precisamente sobre a validade dos estudos. Segundo parece, há pessoas que dizem não mandar mais os filhos à escola pelo facto dos estudos não serem válidos.

Durante os muitos anos em que se tem ensinado o Português aqui em Montreal, devem ter sido alguns milhares os que aprenderam a nossa língua, e creio que só uma pequena percentagem deve ter tirado benefícios por ter um diploma. Se quisermos ser realistas e não ver as situações emocionalmente, devemos compreender a mudança dos tempos e realizar que daqui por mais uns 20 anos, os portugueses no Canadá serão muito poucos e que haverá quase só descendentes, que poucas raízes têm com Portugal e que para esses, o único elo de ligação com Portugal será a língua. Há algo de curioso que se passou nos últimos anos com a abertura da Universidade dos Tempos Livres – várias pessoas de idade já avançada foram aprender o Inglês para poderem comunicar com os netos, quando eu penso que seria mais fácil aos netos aprenderem a falar com os avós.

Eu creio que as pessoas, antes de se preocuparem com a validade dum diploma, deveriam pensar que é através da comunicação que se estabelecem os laços de amizade e que isso é quase tão valioso como todos os diplomas juntos.
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