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Todos os Santos e Todos os Fiéis Defuntos
Natércia Rodrigues

SAOs dois primeiros dias de Novembro, respectivamente os dias 1 e 2, levam a que frequentemente se imagine que se trata de uma única celebração em dois dias consecutivos. No entanto, cada um destes dois dias tem muito de comum; a celebração do mistério da vida para além da morte e a esperança de nela tomarmos parte, como membros do mesmo Corpo de Cristo, que por nós morreu e para nós ressuscitou.

Na Solenidade de Todos os Santos, a Igreja propõe-se esta visão da glória para que, com o cair das folhas das árvores e o apagar-se gradual da luz do dia, não esmoreça nos seus filhos a esperança da vida e da vida plena em Deus, onde os Santos são para nós ainda peregrinos na Terra, um estímulo e um contínuo convite a que desejemos, para além da morte, a vida eterna em Deus. O dia de Todos os Santos é, por isso, um dia de festa que não deve ser ofuscado pela celebração do dia que se lhe segue.

O dia dos fiéis defuntos, dia dos mortos ou dia de finados, é celebrado pela Igreja Católica no dia 2 de Novembro, logo a seguir ao dia de Todos-os-Santos. Neste dia, muitos fiéis costumam visitar os cemitérios para rezar e venerar a memória daqueles que já partiram. O sentimento de saudade é inevitável. Contudo, os cristãos procuram testemunhar uma esperança confiante, apesar do sofrimento gerado pela separação de seus entes queridos. Finalmente, eis a grande esperança celebrada no dia de finados: que os falecidos já tenham encontrado a vida verdadeira juntos de Deus.

Os que morreram dormindo, os que morreram sonhando, os que morreram quietos, os que morreram gritando, os que morreram crianças, os que de velhice se foram, os dos acidentes de carros, de autocarros, atropelamentos, comboios, aviões, navios, submarinos, plataformas, foguetes e todos os acidentes de trabalho e do lar. Os que morreram nas guerras, violências das casas, das cidades, dos povos. Os que morreram das pestes, doenças. Os que morreram de repente, os que foram torturados lentamente. Os que morreram exilados, os que exilaram e morreram nos cárceres e masmorras dos regimes totalitários. Os que morreram por matar, estuprar. Os que morreram assassinados, maltratados. São todos os mortos, indiscriminadamente que devem ser homenageados. Bons e maus, boas e más. Que todos descansem em paz, que as Almas dos fiéis defuntos pela Misericórdia Divina, descansem em paz.

O gesto mais comum no dia de Finados é a visita ao cemitério, a participação na Eucaristia e as devoções próprias de cada cultura, como acender velas, oferecer flores e enfeitar os túmulos dos falecidos. Em todos estes gestos enraizados no ser humano transparece a consciência que temos do nosso finamento e da necessidade absoluta de apego ao Divino para a manutenção da esperança em glorificação da existência. Acendemos velas para lembrar que essa luz segue iluminandonos, em nossos corações. Veneramos os seus exemplos e imitamos a sua fé. Enfeitamos as sepulturas com flores, símbolo da ressurreição. Nossos mortos são plantados como sementes, regadas com nossas lágrimas, e florescem ressuscitados no jardim do Senhor.

Além disso, ao recordar a vida de um ente querido, nós próprios deparamo-nos com a realidade da morte na nossa vida e pesamos os nossos comportamentos pessoais e sociais. A presença da limitação e fraqueza da vida permite-nos sermos mais humildes na consideração da validade da nossa vida. Não há como ficar insensível diante da finidade da carne humana! Vale a pena recordar que a celebração de Finados marca a esperança cristã na Ressurreição e deve ser iluminada por aquela alegria que marca a fé cristã.

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