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Alunos sem repreensão ou castigo
Augusto Machado
Lembro-me nos anos 80 a minha filha mais velha, professora na área de Montreal, queixar-se da indisciplina
de alguns alunos na sua classe. “Tenho dificuldade
em compreender como é possível em apenas uma geração o comportamento dos jovens ter mudado tanto. No meu tempo de estudante qualquer aluno que não respeitasse as regras da escola era imediatamente castigado ou até suspenso”. Desabafava ela quando chegava
a casa exausta de aturar alunos desordeiros.
Vem isto a propósito da violência escolar sem castigo que se vai alastrando por muitas escolas do país. Vejamos alguns casos polémicos que geralmente acabam impune:
Durante três meses, David, 16 anos, foi diariamente torturado com o ‘jogo do poste’ pelos colegas mais velhos da Escola EB 2,3 Dr. Daniel de Matos, em Vila Nova de Poiares. A brincadeira provocou-lhe graves lesões genitais que o levaram a submeter-se a uma cirurgia. Resultado, os oito alunos que infligiram as agressões (que consistiam em levar a vítima, de pernas abertas, a embater num poste) não foram expulsos nem suspensos. Aliás, nem sequer foram repreendidos. A mãe do estudante agredido apresentou queixa na escola mas tudo caiu em saco roto. E para evitar novos problemas com os colegas transferiu o filho para outra escola. Entretanto, logo a seguir, outro aluno ficou gravemente ferido com a mesma brincadeira.
Num outro caso um aluno do 11º ano da Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa, entrou numa aula de História de Arte do 12º e surpreendeu a classe ao apontar uma pistola de brincar à cabeça da professora. O estudante usava um capacete azul, de forma a esconder a cara, mesmo assim a direcção da escola conseguiu identificá-lo através das câmaras de segurança. Resultado, o aluno foi suspenso por apenas 5 dias. Quanto à professora, essa, teve que receber apoio psicológico.
A lista de incidentes deste género nas escolas portuguesas é longa. São sinais do tempo e da moral permissiva nas sociedades de hoje, em que se abolem os padrões morais e tudo se permite – jovens que têm direitos, e ainda bem. Só que os seus direitos deveriam terminar quando estes interferem com os direitos dos outros.
Não é o que está acontecer – estes indisciplinados ”trouble makers”, estão-se nas tintas porque sabem que escapam sem repreensão ou castigo.Os números oficiais mais recentes são do Relatório de Segurança Interna de 2006, que aponta para o crescimento do número de incidentes que ocorreram nas escolas – a maioria violência e furtos. Segundo João Grancho, presidente da Associação Nacional de Professores, desde o início do ano lectivo e até a semana passada, registou-se uma denúncia por dia e houve sete casos de agressão física contra professores.
A UNICEF divulgou recentemente um relatório com números que comprometem Portugal. Quase metade das nossas crianças dizem-se vítimas de “bullying”, ou seja, de violência física e psicológica por parte dos colegas. Baste ver que no site de partilha de vídeos You Tube cresce o número de imagens que mostram agressões entre alunos.

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