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Os pobres que paguem!
Augusto Machado
Há tempos, num semanário da capital, Alfredo Barroso,
membro fundador do PS, escreveu um artigo que mereceu a nossa atenção. Este socialista descreve o estado de completa devastação ideológica em que se encontra o PS e o país. E não poupa críticas ao primeiro ministro e ao seu Governo.
“Empenhado em meter o país nos eixos, o Executivo chefiado pelo sempre severo e temível engenheiro Sócrates
cometeu uma proeza (in)digna de qualquer partido socialista
que se preze: uma redução rápida e brutal do défice do Orçamento do Estado e uma subida vertiginosa das desigualdades
sociais; um aumento algo pindérico da taxa de crescimento do PIB e uma diminuição bastante significativa
do poder de compra dos trabalhadores. Mais: enquanto o desemprego se situa a um nível muito alto e precariedade se generaliza, as grandes fortunas prosperam, tendo crescido
35,8 por cento em relação a 2006. Um escândalo”, desabafa este socialista, acrescentando que este não é, de modo algum, um governo socialista - mais se parece com um governo de direita.
“Bem podem tentar desqualificar-me, chamando-me o que quiserem, os números são bastante claros, não foi eu que os inventei”. Na verdade São números do Instituto Nacional de Estatística, do Instituto do Emprego e Formação
Profissional e do Eurostat. O certo é que as diferenças de rendimento entre ricos e pobres, em Portugal, atingiram
uma dimensão inédita, batendo um novo recorde: ao contrário da tendência que se regista na União Europeia, o fosso salarial entre ricos e pobres alarga-se e situa-se, agora, duas vezes e meia acima da média comunitária. Além disso Portugal é o país europeu que menos investe na Segurança Social. O desemprego de longa e muita longa
duração cresceu assustadoramente e já represente quase metade do total de 470 mil desempregados. Há 250 mil desempregados com menos de 35 anos e 124 mil com mais de 44 anos.
Parece absurdo que o combate à crise económica e financeira,
levado a cabo por um Governo pretensamente socialista,
em nome dos superiores interesses do país, resulte
em maiores desigualdades sociais, mais precariedade, mais desemprego e mais pobreza, ao mesmo tempo que as grandes fortunas aumentam vertiginosamente. Mas, como dizia Napoleão, “em política, o absurdo não é um obstáculo”.
Não se contesta o papel crucial da propriedade privada e do capital no desenvolvimento de uma sociedade aberta, livre e democrática. Mas é legítimo perguntar que contribuição
têm dado os mais ricos para combater esta grave crise. Queixam-se de que o Estado os estrangula, mas a verdade é que as suas fortunas crescem a olhos vistos, ao mesmo tempo que as classes médias empobrecem e os trabalhadores
sofrem os efeitos da técnica da banda gástrica que este Governo decidiu aplicar-lhes para lhes reduzir o apetite.
“A devastação ideológica, conclui este socialista, que se verifica no PS remonta ao tempo do inefável engenheiro Guterres. Mas o ‘pico do incêndio’ só foi atingido agora, sob o égide do intratável engenheiro Sócrates.
A perda de quaisquer estímulos ideológicos na luta política gerou um vazio ao nível das ideias, das convicções e dos princípios, dando lugar a uma nova classe de políticos mais sensíveis a motivações materiais, a interesses pessoais e de poder. Foi a vitória do sentido de oportunidade, (...) e do pragmatismo sem princípios.
As chamadas ‘práticas clientelares’ (mais evidentes ao nível autárquico) e de ‘governo paralelo’ (das grandes empresas e interesses financeiros) impõem-se hoje, aos partidos do bloco central.
Por isso, não espanta que a passagem do poder do PSD para o PS (e vice-versa) não seja mais do que saltar do lume para a frigideira”.

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