|
 |
|
|
 |
|

Matrimónio discutido (conto)
J.J. Marques da Silva
Seis jovens, três pares, sexos diferentes, inundados de amor recíproco, criativo, com projectos de maravilha para o lar e para a sociedade. Vinham de um fórum de debate, mas os pares
estavam em completo desacordo
e continuavam a discutir. Queriam combinar um matrimónio colectivo para ter lugar em aquela quadra de Natal. Seria um sinal para todo o mundo, manifestando
que o amor não tem fronteiras, não impede as técnicas
da produção nem o valor da fraternidade. Porém, tinham religião diferente! Um dos jovens pugnava por “Bhagavad-gitá”, considerado o evangelho de Krisna, do hinduismo, e citava, embevecido, as palavras mal articuladas:
-- “A cerimónia do matrimónio tem por finalidade regular a mente de modo que encontre a paz necessária ao processo espiritual” (XVlll.5). “Os Vedas recomendam o matrimónio sagrado para sancionar os prazeres dos sentidos, mas com restrição” (lV.31). O meu receio é saber se Sheila mantém a sua virgindade... – Era a sua noiva, mas esta atacou de imediato, meio agastada:
-- Isso me ofende! Eu não lhe pergunto se ele também é um moço virgem... Ele conhece a minha resposta. A sua pertinácia, em querer que eu sempre diga, “sim”, manifesta o sentido de que eu não me esqueça que ele será sempre o homem mandão e perguntão... Aí eu estou em desacordo... Não terá concluído que os tempos são outros?!
Os seis jovens eram estudantes da mesma universidade e, na decorrência dos muitos dias de estudo já tinham acordado que o termo “religião” era fonte de distúrbio, e havia necessidade de o reinterpretar. Tinham-se feito amigos e era urgente que se entendessem porque o Natal se aproximava, e consideravam que o seu matrimónio colectivo fosse um sinal de abertura para a paz do bairro onde moravam, no respeito e na tolerância mútua dos seus moradores. Todavia eles continuavam divergentes em vários pontos de vista. Logo que a jovem terminou de falar, o rapaz do par muçulmano acudiu:
-- Não podemos olvidar o que dizem os livros sagrados. O Alcorão, por exemplo, aconselha-nos: “As vossas mulheres são para vós como um campo que deveis cultivar; cultivai-as conforme o vosso agrado e praticai boas acções por vossas almas”(Sutra ll:223). -- Mas Mima, o seu par, não se deteve e replicou:
-- Ora bem: estou terminando o meu curso de engenharia; se nos casarmos qual é a matéria da tua cultura para comigo?! – Ele não respondeu, ou não soube responder. Na mesma sutra (ou capítulo) do Alcorão, estância 235, está também escrito: “Não há pecado, para vós, naquilo que proclamais ou escondeis nas vossas mentes a respeito do vosso noivado com mulheres”. Como reinterpretar? E se alguém reinterpretasse não faria nova religião?
Nesta altura, um cavalheiro, que circulava na distância de alguns metros, foi-se aproximando, sorridente, em manifesta simpatia. Tanto parecia um jovem escorreito como um adulto amadurecido. Sua postura era atraente, embora o seu vestuário, sem ser complicado, levasse a concluir que era adequado para todas as estações e hemisférios. Aproximando-se, pediu licença e disse:
-- Conheço-vos, sei os vossos nomes e também os vossos problemas. Permiti-me perguntar: quantos deuses conheceis? – A uma só voz todos responderam: Nenhum!- Ele continuou: e quantos haverá omniscientes? – Titubeando todos disseram: é possível que somente “Um!” – Está bem! Reparai: vós, afinal, tendes a mesma religião! Por que tanta contenda? – E os seis jovens, estupefactos, como um só grito foram unânimes:
-- Temos livros diferentes!
--Um único Deus, se os inspirou, pode ter quantos livros haja, mas, se é “omnisciente”, não pode ser “contradição”. Sede atentos: os homens (vós mesmos) fizeram (fazeis) doutrina dos livros, e interpretam (vós mesmos interpretais) de modo diferente; e aí está o conflito!... –
De um salto, com todo o aprumo e ligeireza, o jovem que até então estivera calado, mas que era de confissão cristã, pontificou:
-- Se o Senhor sabe quem somos deve saber que nos propusemos um matrimónio colectivo para celebrarmos um Natal diferente e todo o mundo seja atingido; diga-nos: de qual confissão vai sair o sacerdote para o celebrar?!
O cavalheiro olhou-os com simpatia! Todos eles já tinham estudado que, segundo os estóicos somente o sábio é sacerdote. Mas o sábio também era adivinhação e justiça!... A tarefa do sacerdote em Israel, na origem, não era sacrificial, mas conselheira e oracular. No livro de Juizes, por exemplo, cita-se o caso de Mica, o efraimita, que assalariou alguém para lhe servir de sacerdote (18:5). Nos tempos de Jesus havia um abismo social entre os sacerdotes de craveira e os sacerdotes comuns. Todavia, quando enviou leprosos aos sacerdotes para confirmação de cura, respeitou a autoridade deles sem designar qual fosse (Mat.8:4; Lucas 17:14). No Apocalipse capítulo 1:6 e 5:10, os cristãos são chamados “reis e sacerdotes”, e conclui que “serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com ele os mil anos” (Apoc.20:6). O assunto é, de facto, complexo! -- O cavalheiro continuou:
-- O primeiro casamento da Bíblia foi Deus que o oficiou. Nenhum matrimónio, em verdade, será justamente legal senão tiver Deus como participante. Ele é o Criador dos nubentes. O amor que os une desponta das células que vivem nos seus órgãos, e projecta-se, no lar, em fusão de sentimentos que saem pelas portas para atingirem toda a sociedade nas suas múltiplas direcções de execução! O sacerdote é paterno e, nos ofícios, é simples emissário. Dizei-me: vós amais-vos alem das convenções sectárias?
-- Sim! – foi a resposta uníssona que suou para lá das nuvens.–Quem é o Senhor?! – foi a pergunta de exclamação que não encontrou distâncias...
-- Há muitos, muitos anos, --continuou o cavalheiro adventício-- apareceu na Terra um sacerdote chamado Melquisedeque (Gén.14:18). Nunca se soube algo da sua nacionalidade, mas Alguém, ainda hoje desconhecido por muita gente, continua a ser sacerdote segundo a sua ordem (Hebreus 5: 6-21). Ele pode oficiar o vosso matrimónio colectivo. A sua dignidade não oferece dúvidas! Quereis...
-- Sim!! – tocados por palavras tão mansas, foi a resposta sem objecção.
O matrimónio colectivo foi marcado e anunciado para ter lugar a par de um Foro sobre acomodações de ordem política. A conveniência era atingir muita gente para testemunho, mas apenas um periódico foi solicitado para cobrir a celebração, e a equipa destacada chegou tarde, circuito fechado e entrada excluída, e não houve média que reportasse o evento, ou indicasse o nome do sacerdote!...
Alguns anos depois, um curioso veio a saber que o bairro onde moravam os estudantes jamais tivera conflito! Os filhos de cada casal brincavam juntos nos terreiros das escolas e, nos ofícios divinos de cada templo ensinava-se que cada pessoa era livre para se alimentar da doutrina que entendesse, sem ofender a Deus como promotor de distúrbios!

 |
|
|
 |

A Voz de Portugal é o mais antigo semanário de língua portuguesa no Canadá
Fundado no dia 25 de Abril de 1961, em Montreal, Quebeque, Canadá.
4231-B Boul. St-Laurent, Montreal (Quebeque) Canadá H2W 1Z4
Tel.: (514) 284-1813 - Fax: (514) 284-6150
|
|
|
|