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Erro desagradável a corrigir
Raul Mesquita
É elementar o desejo de que a Informação
seja verdadeira. Em todas as situações
as notícias servem para informar
os cidadãos e a ajudá-los a reflectir sobre
o mundo que os rodeia. Acompanharem
o nascimento ou a evolução de projectos
que os concernem. Satisfazerem os
seus anseios de verdade das coisas. Sem
meias verdades ou subterfúgios. Portanto,
para isso, as notícias têm de ser úteis
e fiáveis.
Numa época em que o mundo se tornou
numa grande vilória, na gestão da comunicação
não se podem adiar informações,
porque o oposto da verdade não é apenas
não a publicar é, também, omiti-la.
Ora, serve este intróito a reclamar clareza,
para tocar num assunto que tem apaixonado
uma razoável camada de compatriotas,
ligado com um projecto trazido,
parcialmente, à estampa, — constatamos
agora — nos finais do mês de Outubro.
Os jornais comunitários portugueses
receberam uma comunicação da freguesia
do Plateau de Mont-Royal, sobre um
projecto que não satisfaz. Assinado pela
Conselheira D. Isabel dos Santos, senhora
afável e de grande delicadeza, peca
por ter sido planificado sem a participação
daqueles que no local vivem ou representam
com os seus comércios, a vida
portuguesa no seu dia a dia, nas suas tradições
nos seus marcos inalienáveis de
portugalidade. O grupo formado, do qual
fazem parte algumas figuras respeitáveis
e de grande reputação, deveria ter escutado
a opinião daqueles que alimentam
a vida no sector, antes de apresentarem
um processo concluso. Há efectivamente
correcções a fazer para que mais de cinquenta
anos da presença portuguesa, possa
ser dignamente assinalada. O projecto,
tal como está, não serve para a maioria
silenciada.
A determinação de frases escritas nos
passeios que terá sido a proposta mais
válida avançada pelo grupo, — desconhecem-se as mais fracas — não faz
unanimidade entre os elementos representativos
portugueses do Boulevard,
confrontados com uma democracia de
imposição. Conclusiva.
Sem participação dos mais directos actores.
Todavia tudo isto não é o conteúdo total
desse descontentamento. Há uma flagrante
e lamentável falta de comunicação. Senão
reparem.
Teor diferente, no mesmo período da publicação
nos jornais comunitários, teve o
jornal açoriano Atlântico Expresso, que a
29 desse mês noticiava sob o título “Em
Montreal - Bairro Português quase
pronto” o texto que se transcreve para
melhor compreensão do leitor: “ A comunidade
lusa de Montreal deverá contar, a
partir da Primavera de 2008, com o seu “bairro português” um projecto multifacetado
e original, baseado em tópicos
de identidade do país, como a adopção
de frases de ilustres portugueses. Em declarações à Agência Lusa, a vereadora
portuguesa Isabel dos Santos, defensora
e promotora deste projecto na Câmara
de Montreal, garantiu que o “bairro português
vai ser uma realidade na próxima
Primavera e incorporará marcas da
cultura e do povo que representa”. A
extensão está definida: serão cerca de
800 metros na histórica rua da cidade de
Montreal, a Saint-Laurent, delimitado na
perpendicular pelas ruas Roy e Marie-
Anne, onde fica o Parque de Portugal”.
“Será um monumento extraordinário
aos portugueses na cidade e permitirá
fazer a ponte e chamar a atenção para
cultura portuguesa”, realçou Isabel dos
Santos.
“O bairro ficará instalado numa zona
nobre da cidade, onde está boa parte do
comércio e restauração portugueses. A
criação do bairro dar-lhes-á ainda maior
visibilidade”, considerou.
O texto continua informando que a ideia
do bairro português é “velho sonho” da
comunidade e que vários movimentos
foram tentados mas que se desvaneceram
no tempo.
Acredito sem sofismas na boa vontade
dos componentes do grupo de liderança,
mas tenho igualmente de compreender a
frustração daqueles que justamente pensam
que deveriam ter sido convocados a
exprimir as suas opiniões. E talvez tivesse
sido fácil, então, estabelecer acordos
face aos condicionalismos que possam
existir. Porém, a falta de comunicação
e de explicações pertinentes, provoca a
confusão e cria o descontentamento.
Assim, por exemplo, como justificar os
insignificantes 800 metros de passeios no
St-Laurent, para identificação dos limites
do “bairro português” com uma dezena
de frases? Numa das tentativas para
o reconhecimento do bairro, a iniciada
por Luís Miranda, no tempo em que fazia
equipa com o Maire Tremblay, previa
como limitação o rectângulo compreendido
pelas ruas St-Joseph e Sherbrooke,
no sentido Norte-Sul e St-Denis e Du
Parc no sentido Este-Oeste. O que me
parece justo. Com o abandono de Luís
Miranda da Equipa Tremblay, o projecto
esvaneceu-se.
Por outro lado, o que significa “um projecto
multifacetado e original, baseado
em tópicos da identidade do país, como
a adopção de ..”. Há outras coisas? “…incorporará marcas da cultura e do
povo que representa”. Quer dizer o quê,
concretamente?
São apenas as frases citadas e para as
quais se pediu “colaboração” dos portugueses
para escolherem 10 entre as 22?
Ou há outros elementos representativos?
E quais?
Parece estar formado um grupo de residentes
e comerciantes que contesta o
projecto tal que decidido.
Para além de contestar a decisão de escrevinhar
frases nos passeios, pretendem
inflectir a Câmara ou a freguesia — presentemente
não se distingue bem quem
dirige a municipalidade — para modificações
que sejam mais dignas dos portugueses.
Tanto em termos de espaço como
de elementos representativos.
Conhecendo o espírito conformista e o
servilismo do português comum, apenas
grande clamoroso nas bancadas das banalidades,
a esperança de que avancem
para se fazerem entender é reduzida. Mas
o certo é que há erros que não se devem
produzir nem podem ser caucionados.
Porque, como “alguém” do grupo mandatado
pela freguesia disse há tempos: “a comunidade portuguesa de Montreal
pareceu-me, quando aqui cheguei, a imagem
dum postal duma outra época, dos
anos cinquenta, pois já se não vive assim
em Portugal…”, também não me parece
persuasivo que será a olhar para o chão
que se “lhes dará ainda maior visibilidade”…
Nem melhor.
A lembrar um fado da Amália que dizia: “Perguntei ao homem da rua / porque
anda com os olhos no chão / Silêncio,
foi a resposta / de quem nasceu para a
servidão”.
Sem rancores nem falsas susceptibilidades,
o projecto deve ser revisto e corrigido.
Está em jogo — uma expressão
que os “portugas” gostam muito…— a
dignidade da representação portuguesa
que conta com meio século de existência
e que, contrariamente aos italianos da
Petite Italie, continuam a residir naquilo
que consideram o “seu bairro”. São alguns
milhares, ainda. Para além dos comércios.
A reflectir. A agir. Ou então, calem-se os
murmúrios.
E pronto, ficam abertas as portas do Tribunal
da Inquisição...

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