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O Vulcão dos Capelinhos
em Terra de Lídia, de Maria Orrico
Célia Carmen Cordeiro

SAA celebração dos 50 anos da erupção do Vulcão dos Capelinhos tem-se manifestado de múltiplas formas no arquipélago e na diáspora, desde a inauguração de exposições, abertura de conferências, lançamentos de livros, selos, já para não falar de uma cobertura informativa exaustiva. Ora, tendo em conta que este foi um acontecimento marcante para a história dos Açores no século XX e que se perpetua até aos dias de hoje, gostaria de vos apresentar uma obra que, embora escrita por uma moçambicana, retrata bem alguns aspectos pertinentes do acontecimento supracitado. Trata-se de Terra de Lídia, de Maria Orrico.

Esta obra foi publicada em 1994 com o apoio da Câmara Municipal de São Roque do Pico, em paridade com a atribuição do prémio “Almeida Firmino” à autora. Curioso é, sem dúvida, a forma como se desenrola a intriga do romance, sendo Tomás, um cego vítima da erupção dos Capelinhos, que convida Lídia (protagonista da obra) a visitar os lugares habituais do roteiro turístico do Triângulo Pico-Faial-São Jorge. À medida que seguimos a leitura, apercebemo-nos que Tomás é simultaneamente um guia do espaço físico e do espaço metafísico, contribuindo para que esta Mulher se entregue espontaneamente a uma Natureza virgem que a transporta para uma profunda viagem no interior de si própria.

Nesta perspectiva, a autora apresenta-nos claramente um modo diferente de olhar os Açores: não apenas o seu espaço físico disperso pelo Atlântico, descobrindo o visitante a sua fauna e flora, mas desafiando-o a travar a batalha da auto-descoberta.

Tomás e a sua família representam todas as pessoas que tiveram de abandonar a freguesia do Capelo para se protegerem da catástrofe. Estava a sua mãe para dar à luz, quando a terra estremeceu e “dali para a frente, a cada contracção da terra era uma contracção de si, e tiveram de esperar até que, ao primeiro rio de lava que escorreu da boca do vulcão, nasci eu”. Este fenómeno contribuiu para que Tomás tivesse perdido a visão para sempre. Todavia, ele conhecia aquelas ilhas melhor do que muitos nativos, pois ele próprio era um pedaço daquela terra: “Vês aquele monte de pedra do outro lado do precipício, um braço de terra muito alto que parece ter sido ali acrescentado? (…) Foi formado pelo vulcão dos Capelinhos, durante essa erupção. Eu e aquele monte temos a mesma idade…”.

Tal como nos diz a narradora, Tomás é um “filho da pedra”, isto é, um produto da ilha na sua acepção mais profunda. Também Vitorino Nemésio disse e escreveu um dia na revista Insulana (nº7/8), “temos uma dupla natureza, somos de carne e de pedra: os nossos ossos mergulham no mar”. Este cego personifica de forma profunda essa solidez que brota da terra e mergulha no mar.

Nemésio transmitiu-nos no mesmo artigo que “a geografia para nós vale outro tanto como a história”. No caso desta narrativa literária, poder-se-á mesmo considerar que não há literatura sem geografia, na medida em que a geografia das ilhas do Triângulo marca indelevelmente o percurso existencial das personagens do romance a diferentes níveis de expressão.
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