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Natal, o oiro e a justiça
Manuel Carvalho
Esta ano agasalhada num espesso manto de neve, aí
está, mais uma vez, a quadra natalícia, com todo o
seu fulgor e o seu cortejo de emoções à solta, a baternos à porta.
Quando num frenesim, toda a gente busca um não sei
quê, como escreveu o padre José Maria, cada vez mais
frequentemente dou comigo a sonhar um Natal sem necessidade
de caridade. Porque, embora pareça um paradoxo,
a caridade, esse bálsamo para tanta carência, é a
companheira natural da injustiça. Livres da mão pesada
das injustiças que asfixiam o mundo, teria a caridade
razão de existir?
Do farto filão da literatura
de temática natalícia,
escolhi, desta vez , um
conto de grande poetisa e
escritora portuguesa Sophia
de Mello Breyner
Andresen que integra o livro
Contos Exemplares.
Tal como na antiguidade,
também nos tempos que
correm se instaurou no
mundo, em versão mais
moderna é claro, o culto
do bezerro de ouro. Quando
chegará a hora de interrogar
como o rei mago
Gaspar: “Que pode crescer
dentro do tempo senão
a justiça? “
Boa leitura e uma quadra
festiva de bem-aventurança. “Naquele tempo, na cidade
de Kalash, o príncipe
Zukarta instaurou o culto do bezerro de ouro.
A estátua poisava nas multidões submissas os seus
olhos espantados, muito abertos, pintados de branco e
de preto. No fundo das suas pupilas aflorava quase uma
interrogação, como se a extensão do seu poder o surpreendesse.
Era um jovem bezerro de pequenos cornos
torcidos e pernas musculosas, de testa obtusa, curta e
franzida. As suas quatro patas, firmemente poisadas na
terra, davam uma grande impressão de firmeza e estabilidade
que tranquilizava o coração das suas fiéis. E em
todo o seu corpo brilhava o oiro, o oiro compacto, duro,
pesado, faiscante.
Em frente do ídolo as mulheres curvadas sacudiam sobre
o mármore claro dos degraus os sombrios cabelos
quase azuis. Dos confins do deserto, dos longínquos oásis,
das aldeias perdidas, chegavam homens que depunham
em frente do altar a sua oferta: vinham oferecer
oiro ao oiro. E os homens bons de Kalash, juízes e chefes
guerreiros, desfilavam reverentes em frente do bezerro.
Atrás deles vinham os comerciantes, os vendedores,
os oleiros, os tecelões. Beijavam os degraus do altar
e depunham no chão a sua oferta: traziam oiro ao oiro.
Até os sacerdotes da Lua e os seus fiéis e acólitos se
prostravam, de joelhos tocando o solo, em frente do ídolo
novo de Kalash.
Zukarta olhava todas estas coisas com grande alegria,
pois o culto do oiro era o fundamento do seu poder.
Raros eram aqueles que não acorriam ao templo, cada
vez mais raros. Os muitos pobres, os muito envergonhados,
os muito humilhados, não ousavam apresentar-se.
Eles eram como uma raça à parte, pois a pobreza era
olhada como um estigma que marcava aqueles que o
Bezerro não amava. No fundo das suas almas tão humilhadas
que mal ousavam pensar o seu próprio pensamento,
os muito pobres, os muito envergonhados esperavam
outro deus.
Eles e Gaspar.
Uma delegação de homens importantes veio ao palácio
de Gaspar. E disseram:
- Porque não te apresentas
no templo do Bezerro?
Por acaso te falta oiro
para a oferta? Que tens tu
de comum com a ralé das
docas? Não estás por acaso
vestido de púrpura e
de linho como um rei?
Porque desafias o poder
de Zukarta?
Serás um
traidor?
No culto do Bezerro
está a prosperidade
e a grandeza de Kalash.
Estarás vendido aos nossos
inimigos?
Gaspar respondeu:
- Não posso adorar o poder
dos ídolos. O meu
deus é outro e creio no
seu advento, que o Céu e
a Terra me anunciam.
Ouvindo esta resposta,
os chefes das tribos e os
homens bons de Kalash
disseram:
- Separamo-nos de ti porque te separaste de nós e renegaste
os nossos caminhos. Não serás mais ouvido nos
nossos conselhos, nem partilharás dos nossos festejos e
banquetes. E também não terás lugar na nossa força. Os
soldados não protegerão a tus casa nem as tuas caravanas.
(...)
Desde esse dia, muitas calamidades se abateram sobre
Gaspar. Os bandidos assaltaram as sua caravanas e os
ladrões saquearam os seus palmares. Mãos misteriosas
apedrejavam de noite a sua casa e na água das suas cisternas
apareciam frutos podres e avea mortas a boiar.
E começou o tempo de solidão.
(...)
Porém o tempo crescia.
E Gaspar escutava crescer o tempo. A solidão criava
em seu redor um transparente espaço de limpidez onde
os instantes avançavam um por um e o universo inteiro
parecia atento. O silêncio era como a mesma palavra
inumeravelmente repetida.
E debruçado sobre o tempo Gaspar pensava: “Que
pode crescer dentro do tempo senão a justiça?”
Ajoelhado no terraço Gaspar olhava o céu da noite.
Olhava a alta abóbada nocturna, escura e luminosa, que
simultâneamente mostrava e escondia.
(...)
Primeiro pareceu a Gaspar que a estrela era uma palavra,
uma palavra de repente dita na muda atenção do
céu.
Mas depois o seu olhar habituou-se ao novo brilho e
ele viu que era uma estrela, uma nova estrela, semelhante às outras, mas um pouco mais próxima e mais clara e
que, muito devagar, deslizava para Ocidente.
E foi para seguir essa estrela que Gaspar abandonou o
seu palácio.

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