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Acomodação Razoável
Victor Hugo
Aproxima-se a conclusão da comissão
Bouchard-Taylor sobre a forma de
acomodar os emigrantes que residem na
Província do Québec. Embora com toda a
controvérsia que se tem gerado à volta desta
comissão, creio que no fundo, foi algo de
positivo, pois tem permitido o diálogo entre
as diferentes posições. Costumamos dizer
que é da discussão que nasce a luz. Todos
sabemos que existem situações incontornáveis
e factos que não se podem alterar. Uma é a condição do Québec, como Província
distinta, com mais de 400 anos de existência,
mas que está rodeada por mais de 200
milhões de pessoas de língua inglesa.
Por
outro lado, há o decréscimo da natalidade e
a necessidade dos emigrantes para manter o
equilíbrio demográfico. Acho absolutamente
natural o desejo de preservar a cultura e a
língua, com a integração dos emigrantes na
sociedade que os acolhe. Na minha juventude,
o desejo de aventura e a contestação
ao regime levaram-me a percorrer uma parte
do Globo – trabalhei em vários países e
em todos, com mais ou menos intensidade,
sofri os efeitos da descriminação. Sabemos
que ainda hoje os portugueses fazem a descriminação
aos emigrantes de cor e aos da
Europa de Leste. Até aqui na Comunidade
ainda existe quem faça diferenças, algo que
felizmente, com as novas gerações, tem tendências
a acabar. Quando era já um jovem
maduro, o destino trouxe-me até ao Canadá
e aconteceu algo de incoerente – um militante de esquerda veio viver num país capitalista.
Só que passado algum tempo, verifique
que o capitalismo não era tão mau como
isso.
Aqui pagavam aos emigrantes para
aprenderem a língua e fazerem a integração,
existia a carta de direitos e liberdades, igual
para todos, sejam brancos ou de cor, sem
distinção de religião ou de raça. Aqui asso
sardinhas, danço o folclore e vou à Igreja
Portuguesa sem nenhuma restrição. Como
não tinha aqui família, nos primeiros anos,
foram famílias de canadianos franceses que
me ajudaram e apoiaram. Como para mim
a gratidão é um dos melhores sentimentos,
seria impossível não agradecer a este País
e a esta Província que me acolheram, é o
mínimo que poderei fazer… Como Sako
Koivu, [jogador dos Canadiens de Montreal],
que há dez anos faz aqui milhões e que
não é capaz de dizer MERCI..?
É curioso,
mas um dos depoimentos mais emocionantes
e significativos da comissão foi feito por
Jean Dorion, Presidente da Societé St-Jean-
Baptiste, a favor da causa dos muçulmanos.
Pouco importa a forma como as pessoas se
vestem ou a religião que seguem, desde que
se respeitem uns aos outros, sem cair nos
extremismos. Eu creio que um dos maiores
desafios que enfrentamos neste século, num
mundo cada dia mais globalizado, é de sermos
capazes de nos aceitar, sem diferenças
nem discriminações, pois só assim podemos
viver em paz e harmonia. A todos desejo
um Natal de paz e compreensão.

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