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Porque nunca hablas?
Miguel Carvalho

SAQuando lá longe, do outro lado do mundo, um rei reage ao destempero palavroso de um presidente eleito, emocionam-se. Dizem: temos homem! Por momentos, eis que um rei volta a ser dono e senhor da palavra.

Nas páginas da minha infância, os reis eram sempre bons. Invariavelmente heróicos, sensatos e previdentes, irradiavam bondade, carisma e simpatia. Tinham ideias simples, a palavra certa.

Nunca se enganavam e raramente tinham dúvidas.

Zelavam pelo seu povo, casavam uma vez na vida e constituíam família. Davam-nos príncipes e princesas. E netos por atacado. Viviam todos felizes para sempre, claro. E nós com eles. Um reino era coisa boa: Todos tinham o que comer e onde dormir. As maldades eram normalmente protagonizadas por revolucionários andrajosos,
figuras perversas, mal encaradas, com objectivos sanguinários: Acabar com o reino e, de caminho, com os dias felizes celebrados entre o povo e o seu rei. O imaginário de gerações foi moldado assim: o bem e o mal em cores claras, sem cinzentos, nem mais explicações.

Depois veio a República. Uma maçada: os povos começaram a lidar mal com a corte de privilégios, a vidinha dos salões e as sucessões de sangue. O poder exercido com beneplácito divino e bênção terrena, afinal, era apenas para uns poucos. Tudo isso deu nas vistas. E a coisa precipitou-se. Mas isto, faça-se justiça, deu-se no tempo em que os reis ainda falavam. Mais tarde, muito mais tarde, vieram a Hola, a Olá! e as Caras deste mundo. E a história foi outra. As famílias reais, sem deixar de ser ornamento de regimes, passaram a figurantes de eventos sociais. A Imprensa dita do coração, mas sem piedade, esfregou as mãos perante esta descida à terra com passadeira vermelha.

E, pela primeira vez, reis e rainhas, príncipes e princesas, puseram-se a jeito. À luz dos holofotes mediáticos e coscuvilheiros, a realeza apareceu nua. Nua nas suas infidelidades. Nua nas suas separações e divórcios. Nua nas suas perversidades mais íntimas. Quanto mais tentava esconder, mais se lhe via o rabo.

Já nesta altura, a realeza falava pouco. E passou a falar menos. Escarrapachada
nos tablóides, feita em carne e osso tal e qual o comum dos mortais, perdeu autoridade, divindade, referência.
Por mais guerras que houvesse e tremeliques que lhe dessem, nenhum País com reis transformados em «bibelots» pôde contar, em momentos de crise profunda, com a sábia palavra dos ornamentos.

Vivemos, agora, o tempo em que a realeza não fala. Ou não é ouvida. Para o caso, vai dar ao mesmo. A realeza exibe apenas o sorriso manso das passarelles, estreias e inaugurações. E as palavras de circunstância, caricatura dos costumes.

As gentes mais infelizes nos seus quotidianos, com um olho na novela e outro na panela, acreditam ainda no conto da Cinderela. Folheiam a revista e sentem-se próximos da realeza. Choram a princesa dos pobres e espreitam o casamento do rei que não é deste mundo. Suspiram.

Quando lá longe, do outro lado do mundo, um rei reage ao destempero palavroso
de um presidente eleito, emocionam-se. Dizem: temos homem! Por momentos, eis que um rei volta a ser dono e senhor da palavra. Dono da palavra para mandar calar, note-se. Mas sabe-se como hoje as inexistências
provocam imenso ruído. Em casa, lidam mal com a crítica e o traço. Indignam-se com polémicas e processam humoristas.

Fora de portas, lidam mal com o argumento, por muito absurdo que seja. Mandam calar e saem de cena. Uma coisa e outra não desmentem o que são e para que servem: No fundo, já não passam de simpáticos figurantes de um filme mudo.
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