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A felicidade
Augusto Machado

SAHá tempos vi num programa de televisão um documentário sobre a vida de um homem com estranhos poderes. Pegava num garfo de metal, segurava-o entre os dedos enquanto o esfregava ao de leve, o garfo começava
a ficar mole como se estivesse a ser aquecido – até que se dobrava lentamente, acabando por partir-se.
De um instante para o outro, este homem ficou célebre.

Num dia era um desconhecido, no dia seguinte era uma celebridade. Tudo pelo facto de uma aparição num programa de televisão de grande audiência em que fez este número do garfo, deixando a audiência boquiaberta.
A partir daí começou a ter convites para participar em vários programas de TV, e em pouco tempo tornou-se multimilionário. O homem começou a investir a sua fortuna. Fundou empresas, montou negócios, comprou apartamentos de luxo em Manhattan, coleccionou carros e, como todos os americanos ricos que se prezam, adquiriu o seu avião particular. Mas um dia perguntou a si próprio: «Ser rico é isto? Será isto a felicidade?». Não havia nada que não pudesse comprar – excepto aquilo que verdadeiramente desejava. Aquilo que, segundo ele, o poderia tornar feliz: o amor, a amizade, a boa disposição.

Quando se confrontava com estas dúvidas, encontrou-se com John Lennon, que lhe perguntou: “Sabes o que é a felicidade”? Ele não respondeu e esperou uma resposta.

Então, Lennon disse-lhe: “Vai à procura dela”. Este curto relato com o ex-Beatle mudou a vida deste homem. Vendeu tudo o que tinha – os apartamentos , as empresas, os carros e o avião -, meteu-se com a mulher e os dois filhos num voo para o Japão, instalou-se numa casa junto ao Monte Fuji. Sem televisão, nem telefone nem carro. Esteve lá um ano. E quando voltou era outra pessoa: sentiu que se tinha reencontrado.

Em revistas de sociedade, é vulgar lermos frases como esta, ditas por mulheres de todas as idades: “Quando estou deprimida, meto-me num centro comercial e faço compras”. As `compras´ tornaram-se uma das grandes ilusões dos tempos modernos. Muita gente acredita que, no dia em que puder consumir tudo o que quiser, será feliz. Por isso, os casos mais graves de depressão encontram-se nas classes altas – porque as pessoas aí, já descobriram que a voragem do consumo conduz ao vazio, percebendo que no fim da linha não existe coisa nenhuma. Compram tudo, satisfazem todos os caprichos – e quando já não desejam mais nada, descobrem que afinal, são tão infelizes quando eram de início. Com a diferença de que, antes, pensavam conhecer o remédio para a infelicidade – e agora perderam todas as ilusões. O ’remédio’ não produziu a cura.

Estas pessoas criam as suas próprias situações de infelicidade extrema – é o fastio, o tédio. Enquanto que aqueles que vivem na pobreza sempre podem dizer: eu não sou feliz porque na minha casa passa-se fome; ou porque o dinheiro nunca chega para as despesas da casa; ou porque tenho que estar sempre a fazer contas à vida se não o dinheiro não chega até ao fim do mês e depois há a renda da casa que leva a maior parte do orçamento familiar. Enquanto aquelas pessoas que não lhes falta nada não têm desculpa para não serem felizes.

Dizem que a insatisfação é necessária porque é isso que permite a Humanidade progredir. Nem sempre isso é verdade. Devemos ser exigentes, em primeiro lugar connosco. Mas não serve de nada sermos insatisfeitos com aquilo que não está nas nossas mãos mudar. Isso só trás frustração e desespero.

Para estarmos de bem com os outros e com a Natureza, é necessário resolvermos os nossos conflitos interiores. Eliminar as nossas tentações diabólicas: a cobiça, o rancor, a inveja, ideias da grandeza, exibicionismo, a ambição desmedida.

É inútil buscarmos a felicidade no exterior: se não tivermos sossego dentro de nós, jamais teremos paz. Talvez fosse isso que John Lennon queria dizer quando perguntava ao homem que podia comprar tudo: «Sabes o que é a felicidade?».

Tenham todos um Ano Novo felicíssimo e que a FELICIDADE sempre vos acompanhe.
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