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Gelado aniversário
O 5 de Janeiro de 1998 marcou o início de um longo e penoso período na vida dos
quebequenses. As fortes tempestades de chuva gelada que assolaram a Província
cobrindo de gelo os telhados e as infra-estruturas da rede de energia eléctrica da fornecedora
nacional, deram ao território o aspecto de um deserto do 63º Paralelo.
A chamada “Crise du verglas” que agora comemora o seu décimo aniversário, forçou
a evacuação de milhares de pessoas para centros de acolhimento de urgência e mergulhou
na escuridão total, durante várias semanas a população do Quebeque, já exposta ao frio
gélido que se fez sentir nesse princípio de ano. As elevadas torres de transporte de
energia de alta voltagem, desmoronavam-se como castelos na areia, sob o peso do gelo
acumulado nas estruturas e nos cabos de transmissão. Imagens quase dantescas como
as que inserimos neste apontamento, enriquecido com o poema do malogrado Fernando
André. Para que — um e outro — não sejam esquecidos.
A chuva gelada
Um tempo assim tão macio
Por esta altura do ano ?!..
Quando chove , não faz frio,
Mas desta vez....puro engano.
Uma chuva miudinha
Escorregando devagar
Descia tão levezinha
Mas começando a gelar.
Ninguém sequer a ouvia,
Vinha tão suave e fina,
Que gelava onde caía,
Mas tão linda, cristalina..
Todo o dia, lentamente,
Suave como o veludo,
Mais outro dia seguia
Caíndo, engordando tudo.
Mas tanta, tanta, gelou,
Que sem ninguém dar por nada,
Em tudo que se agarrou,
A carga ficou pesada...
E o que tinha tanta graça,
Tanta beleza e candura,
Transformou-se em ameaça
A partir de certa altura.
Os senhores do parlamento
Dão voltas à cachimónia,
Com o gelo no pensamento,
Nao dormem, sofrem de insónia.
O peso, antigo e normal,
Do efeito que o gelo fez
Aumentou de forma tal...
Multiplicou muita vez,
E apenas em poucas horas,
A catástrofe reluz,
Começaram sem demora
Sinais de faltar a luz.
A rádio e televisão
Noticíam sem parar
Árvores caídas no chão
E que a luz pode falhar.
Fios de electricidade
E postes de alta tensão
Quer no campo ou na cidade
Começam caindo ao chão…
Inquieta-se muita gente
Pois com tão rude natura
Logo que falha a corrente
Arrefece a temperatura….
E como era de prever
As casas mais desprovidas
Começando a arrefecer,
Ficam depressa despidas..
O pânico não tardou,
Muitas empresas fecharam,
E o governo declarou
Que as escolas encerraram.
Nas ruas do ´´Centre-Ville ´´
A confusão tomou âmbito,
São, por decreto civil,
Zonas fechadas ao trânsito.
O gelo, constantemente,
Nos telhados, por desgraça
É uma ameaça evidente
P’rás cabeças de quem passa.
P’ra quem seguisse em viagem
A estrada, estreita e comprida,
É um ringue de patinagem
E onde se arrisca a vida.
Metia dó, piedade,
Postes , estruturas de aço,
Com tanta ferocidade,
Pelo chão, num só pedaço.
P’ra quem gostava do inverno
E de patinar no gelo,
Transformou-se num inferno
Ou num grande pesadelo...
E as casas, brancas e nuas,
Ficam por dentro tão frias,
Tão tristes , que inteiras ruas
Ficam desertas, vazias.
Está quase tudo esgotado,
Comida, água e madeira
Que vale oiro no mercado,
Para queimar na lareira.
E muito desesperado
Numa corrida frenética
Paga a preço exagerado
Uma geradora eléctrica.
Dá tanta pena , faz dó,
O que a rádio noticía
Muita gente em casa, só,
Sofrendo de hipotermía.
Não se querem ir embora
Com o medo dos ladrões
Porque mesmo nessa hora
Nao perdem ocasiões.
Inseguros, insurgidos,
De medo de ser roubados,
Apesar de protegidos
Por policias e soldados.
Faltando a televisão,
Volta-se ao tempo de outrora,
Velas na mesa ao serão...
E até se improvisa agora.
E sem luz, lareira em chama,
Muita vez até por medo ,
Põe-se mais roupa na cama,
Deita-se tudo mais cedo.
Há coisas que certas vezes
Dão resultado atrasado
E daqui a nove meses
Vai-se ver o resultado..
O rol de muitos sobrinhos
Poderá ser alterado ,
Vão fazer falta padrinhos
Para tanto baptizado..
Os jovens acham piada
Esta forçada vigília,
Situação abençoada
P’rá união da família.
E os mais pequenos então,
Ligam pouco às coisa sérias
Estão felizes, porque não ? !...
Prolongaram mais as férias...
Estando á espera da corrente,
Já se discorre muito a fundo,
Esta coisa, diz a gente,
É um sinal do fim do mundo.
Sente-se a falta normal
Do que a gente se habitua
No conforto e em geral...
Mas a vida continua...
Às vezes a natureza,
É dura, tudo consome
E os passarinhos , sem mesa,
Não cantam, morrem de fome.
Oh, coragem !.. De repente,
Cria-se um espirito novo,
Pois de todo o lado a gente
Quer ajudar este povo.
Perante esta vaga humana
Até há mesmo quem mude
E ao movimento se irmana,
Mudando a sua atitude.
Nasce a solidariedade,
Centros p’rá gente acolher,
Sinal de que a humanidade
Faz milagres, quando quer.
E todos sem dar à língua
Meteram as mãos à obra…
Bem depressa o que era
míngua,
Chega p’ra todos ...e sobra.
O governo nada nega,
Longe dele o parecer mal,
Pois a grandes passos chega
A campanha eleitoral.
Os ministros sem parar,
Fazendo reuniões,
Prometem logo entregar
Generosas subvenções.
P’ró povo ficar sereno
Perante o grave sinistro
Se deslocou no terreno
Mesmo o primeiro ministro.
As vilas têm poderes
Gerais e ilimitados
P’ra, nos centros de lazeres
Acolherem sinistrados.
E p’ra ajudar na missão
A limpar árvores quebradas,
Entram depois em acção,
Milhares, das forças armadas.
Nas horas necessitadas
É que se acham os amigos
E nestas horas dobradas,
Uns aos outros dão abrigos.
Há também quem se
aproveite
Desta situação de crise
E no negócio se ajeite,
Por mais que a rádio os avise.
Nadando contra a corrente,
Sobem o preço de tudo
Tiram proveito indecente
Do negócio tão chorudo.
Foi num ritmo tão activo,
Noite e dia sem parar,
Que o esforço colectivo
Fez voltar a luz ao lar.
Embora tenha causado
Vistoso, avultado custo,
O gelo será lembrado
Como um aviso...e um susto.
Dizem homens de saber,
Que é transparente e certinho
Que o que estamos a viver
São os efeitos de “El Ninho”.
Isto mostra com certeza
Que até nos efeitos seus,
Quando quer a natureza
Nos aproxima de Deus.
P`ra que fique registado
Antes que a memória seque,
Foi no inverno passado,
Noventa e sete, no Quebec.
A chuva gelada
Fernando André

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