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As voltas que a vida dá
Augusto Machado

SAEra uma vez um miúdo que trabalhava com o pai numa pedreira. António, (nome fictício) com nove anos de idade nem sequer acabou a escola primária, como tantas outras crianças nos anos 40 e 50, os filhos dos pobres em vez de irem à escola tinham que ir trabalhar – todos os braços eram poucos para ganhar uns míseros escudos para alimentar tantas bocas lá em casa. Os pais de António tiveram seis raparigas e quatro rapazes.

Farto de tanto martelar nas pedras e de tantos carros de pedra ter ajudado a carregar e, não vendo maneira de se libertar daquela vida penosa e miserável, o António, quando tinha 14 anos, decidiu dar o salto. Arranjou quem lhe emprestasse dinheiro para pagar ao passador (um português arraiano que se juntara com um galego à sociedade no negócio de passar “carneiros” para a França).

Dessa vez, passaram um grupo de seis; 2 adultos e 4 jovens. António era o mais novo. Atravessaram a fronteira de noite, perto de Monção, e depois de atravessarem toda a Espanha, “numa viatura que nem para transportar animais servia”, lembra o António, chegaram finalmente à fronteira de Irum, San Sebastian, e Bayonne, França.

“Quando chegamos a Bayonne, recorda António, a polícia francesa, depois de verificar que nos dirigíamos para Chalon-sur-Soane, e que tínhamos lá alguém à nossa espera, disse-nos que podíamos seguir. Tomamos o comboio até ao destino. e foi aí, em Bayonne, nesse mesmo momento, que todos nos sentimos que estávamos num país livre”.

Estávamos nos anos 60. Uns porque procuravam uma vida melhor outros, no caso dos mais novos, porque tentavam fugir ao serviço militar e escapar à guerra colonial, a emigração clandestina tornou-se uma solução para quem queria sair do País. António logo arranjou trabalho na construção civil na zona de Chalon e Dijon. Depois mudou-se para Strasbourg, em Alsace onde ele ganhou a sua fortuna. Criou uma empresa de construção e “com muito trabalho, muito suor e com muita responsabilidade, conta ele, foi assim que ganhei o que tenho hoje. Agora são os meus filhos que estão a gerir a empresa e os meus interesses em França”. Este português, casado, pai de três filhos, que foi assalto para a França, agora reformado e a viver em Portugal, é um homem rico e, até invejado por alguns vizinhos. Vive num casarão que mandou construir com todas as comodidades próximo do rio Minho. Tem um luxuoso barco de passeio, a mulher conduz carros topo de gama e ele ia... tomar a sua bica, a 200 metros de casa, de Jaguar... Esta é uma história verdadeira. E até ao mês de Novembro, para o António de 66 anos, a vida sorriu-lhe.

Mas a vida, às vezes, prega-nos partidas. E, infelizmente, para este nosso compatriota, um mês antes do Natal, recebeu do seu médico uma má notícia... uma sentença!

A sentença de que a morte bateu-lhe à porta. O António foi diagnosticado com um câncer nos intestinos... e segundo o prognóstico dos médicos, já numa fase bastante adiantada. Recusaram operá-lo, disseram à esposa e aos filhos que já não valia a pena. Para atenuar o progresso da doença, está a fazer quimo terapia. Entretanto, António vê-se a diminuir-se de dia para dia. As voltas que a vida dá!

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