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O tempo não pára
Victor Hugo

SAÉ preciso saber quando uma etapa chega ao fim. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas, que precisamos viver. Devemos encerrar círculos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que lhes damos, o que importa é deixar ao passado os momentos da vida que já acabaram.

Foi despedido do trabalho? Terminou uma relação? Saiu da casa dos seus pais? Partiu para viver noutro país? Uma amizade tão longamente conservada desapareceu sem explicações. Você pode ficar durante muito tempo perguntando porque isso aconteceu. Pode dizer que não dará mais um passo enquanto não entender a razão de tudo isso. Muitas coisas eram tão importantes na sua vida e subitamente se transformaram em poeira. Essa atitude será um desgaste imenso para todos, pais, filhos, irmãos, esposas e amigos. Todos vão ficar sofrendo por saber que você ficou parado. Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender todas as coisas que nos aconteceram. O que passou já não volta, não podemos ser eternamente jovens, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes a viverem uma recordação que acabou e que jamais voltará. Tudo passa e o melhor que podemos fazer é deixar o passado ir embora. Por isso é muito importante esquecer recordações, por mais doloroso que isso seja. Não adianta guardar as coisas que já não têm utilidade.

Tudo neste mundo visível é uma manifestação invisível do que está acontecendo no nosso coração e ao desfazermo-nos de certas lembranças, estamos criando espaços para que outras venham tomar o seu lugar. A vida não é um jogo com cartas marcadas – às vezes ganhamos e noutras perdemos. Não devemos esperar que nos devolvam algo que perdemos nem esperar que reconheçam o nosso esforço ou que entendam o nosso amor. Não devemos ver sempre o mesmo programa, que nos mostra o sofrimento com determinada perda, pois isso só virá envenenar ainda mais a nossa vida.

Os desgostos de amor, as promessas não realizadas, ou as decisões adiadas constituem sempre um perigo emocional. Antes de começar um novo capítulo, é preciso terminar o antigo e dizer a si-mesmo que o passado jamais voltará. Lembremo- nos que nada é insubstituível, nem pessoa, nem hábito ou necessidade. Pode parecer óbvio, até pode ser muito difícil, mas é muito importante encerrar capítulos, não por orgulho, por incapacidade ou soberba, mas simplesmente porque já não faz parte da nossa vida. Feche a porta, limpe a casa, sacuda a poeira e mude o disco. Deixe de ser aquilo que já foi, para se transformar naquilo que hoje é. Assegurese de saber quem é a si próprio, antes de esperar que alguém o diga, para se tornar numa pessoa melhor. Lembre-se do que disse Fernando Pessoa: “Tudo o que nos chega, chega sempre por alguma razão”.
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