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Do tempo e do homem
Homenagem a Victor Cruz no “Atlântida”
António Vallacorba

SANem sempre se me proporciona ver aos sábados na RTPi (por descuido e esquecimento, entre outros) o excelente programa “Atlântida”, superiormente animado pelo nosso comum e bom amigo, Sidónio Bettencourt. Mas quando me “calha”... é de ficar profundamente extasiado pela sua alta qualidade – em termos técnicos e paisagísticos, pelos temas propostos, profissionalismo e simpatia que o seu animador irradia!

Há semanas, porém, mal sabia eu da grande emoção que iria sentir, quando ao ligar o receptor, logo o Sidónio anunciava que a emissão seria inteiramente dedicada como homenagem ao Victor Cruz, cuja passagem do seu 79º aniversário ocorreria alguns dias depois.

(Presentes, também, alguns amigos e/ou colegas dele na antiga Emissora Regional dos Açores, Luís Cabral e José Andrade – este último presentemente director do Coliseu Micaelense).

Francamente, quase não conheci o Victor!

Não tanto pelas marcas do tempo, embora sabendo que a passagem deste sempre acaba por deixar algum “rasto”, mas pelos traços de algo física e psicologicamente mais profundo e que o haviam submetido ao recolhimento caseiro durante mais de dez anos.

Talvez que essa circunstância ajude a explicar a razão por que eu nunca mais tivesse sabido do seu paradeiro, quer através da comunicação social, quer durante aquelas que foram as minhas mais frequentes visitas a S. Miguel desde que de lá embarcara em 1966.

Fazendo minhas as palavras de uma pessoa amiga que de forma tão entusiástica e plena de admiração se lhe referiu, essa foi uma justa homenagem que na “Atlântida” lhe quiseram prestar pelo seu regresso ao convívio social, durante a qual recordaram algumas das suas populares canções, tendo como pano de fundo as maravilhosas paisagens dos Açores.

Tal como em outros casos semelhantes, embora eu tivesse conhecido o Victor por mor da sua colaboração para a Emissora Regional dos Açores e/ou como funcionário do Consulado americano, fora preciso eu ter emigrado para que a nossa amizade se cimentasse mais profundamente através da minha vasta colaboração com o Centro do Emigrante Açoriano e para o jornal Atlântico Expresso, ambos fundados pelo Victor e tendo como ponto de mira as comunidades açorianas espalhadas pelo mundo.

Como o grande açoriano que lhe reconhecemos, fundou ainda a revista “Açorianíssima” e esteve à frente de iniciativas tais como a Caravana da Saudade e o grandioso cortejo do Divino Espírito Santo, assim como os espectáculos da Festa do Emigrante, “Açorianíssimo”, os bailes do Coliseu Micaelense e as festas do Natal dos Hospitais, afora, certamente, muitas outras causas nobres que protagonizou e sobres as quais pouco ou nenhum conhecimento tive por via desta minha ausência.

Sei, contudo, quão admiro a sua forte personalidade, o seu carisma e tudo o que fez em prol da sua (nossa) terra - quantas vezes nos contagiando com o “bichinho” da saudade e do amor às raízes! Como animador de espectáculos, não teve ainda quem se lhe comparasse, e a sua voz, como cantor, registada em vários trabalhos discográficos, fica para sempre ligada aos temas açorianos que tão apaixonadamente cantou por onde quer que actuasse.

Sempre se distinguiu como um autêntico “showmanship”, porque afinal...ele era o próprio espectáculo!

Desconheço o que pelas comunidades fazem os animadores das rádios neste sentido; sei que, aqui em Montreal, a voz do Victor marca sempre uma presença inconfundível e grata nas ondas da emissão portuguesa da Rádio Centre Ville.

Mais tarde no programa, foi-me grato saber também que o Victor já faz parte da “paisagem” citadina pontadelgadense e que desse regresso ao convívio social integra a tertúlia que se reúne regularmente no Café Royal, a partir do qual nos foi mostrado um tributo que lhe prestaram alguns colegas desses encontros, nas pessoas do Gustavo Moura, Carlos R. Cabral e Humberto Moniz.

Para o Victor, Sidónio e toda a equipa do “Atlântida, um grande e sentido abraço com o preito da minha maior estima e admiração.

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