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Após a tragédia
O cenário repete-se. Quando a chuva é intensa, é inevitável fugir ao caos
e ao rasto de destruição que assola todo o
país. Segunda-feira, o mau tempo causou
um morto e pelos menos dois desaparecidos.
Que erros fazem com que situações
como esta se continuem a repetir? Em
declarações, um especialista admite que,
hoje em dia, “continuam a fazer-se construções
em locais desapropriados, como
leitos de cheias”, um erro que sai bem
caro quando chove demais.
A denúncia, uma de várias ouvidas, é de
José Luís Zêzere, do Centro de Estudos
Geográficos da Universidade de Lisboa.
Para o especialista, a situação repete-se há
já vários anos. Mas há uma diferença: “No
passado essas construções eram clandestinas.
Hoje, são licenciadas”, refere.
Segundo o geógrafo, “a lei da Reserva
Ecológica Nacional (REN) contempla a
inclusão dos leitos de cheias”. Contudo,
na prática “esta legislação não funciona”.
“Em boa parte dos Planos Directores
Municipais, os leitos de cheia não estão
devidamente delimitados como REN. E
naqueles em que há essa delimitação, são
feitas de sagregações à REN por várias
razões, para que se possa construir lá”,
diz.
A arquitecta paisagista Margarida Cancela
d’Abreu, por seu turno, exemplifica: “Na bacia hidrográfica da ribeira da Lage,
em Oeiras, vemos cada vez mais áreas
construídas. Grandes superfícies comerciais,
urbanizações e zonas industriais,
com muito betão e asfalto”. Segundo a
especialista, “estes materiais não permitem
que a água se infiltre e esta acaba por
causar cheias”.
O geógrafo José Luís Zêzere adianta
que há zonas na Grande Lisboa que são
mais vulneráveis: “A ocorrência de inundações é mais generalizada em Odivelas,
Loures, Sintra, Queluz, Oeiras, Cascais. É quase toda a margem norte da Área
Metropolitana de Lisboa”.
Ministro culpa autarquias
O ministro do Ambiente, Nunes Correia,
responsabilizou as autarquias pelas
cheias e complicações de trânsito. “Estamos
numa área de competência autárquica.
Tem a ver com as infra-estruturas
urbanas.
O problema do ordenamento do território
já não é o mais sério em Portugal”,
disse. Para a arquitecta paisagista Margarida
Cancela d’Abreu, a culpa não é só
Após a tragédia
das autarquias. “Quando a água chega às autarquias já vem de muito longe. Em
causa estão os cursos de água que não são
limpos e essa é uma função do Ministério
do Ambiente: fiscalizar essa limpeza.
Depois, parte da culpa é também dos proprietários”,
diz.
A câmara de Lisboa apontou a saturação
das redes de drenagem como a causa da
maioria das inundações na cidade, e lembrou
que está previsto um investimento
de 200 milhões de euros para melhorar
o saneamento. O vicepresidente
da câmara,
Marcos Perestrello,
afastou a hipótese das
cheias estarem relacionadas
com a falta
de limpeza das sarjetas.
“O primeiro problema
foi a precipitação
anormal e muito
concentrada no tempo.
Depois, verificou-se
a saturação das redes
de drenagem”, disse.
Segundo o Instituto de
Meteorologia, Lisboa,
Santarém e Setúbal foram os concelhos
onde se registou maior precipitação na
madrugada de segunda-feira.
O alerta vai surgindo cada vez que chove
demais. Contudo, não chega. “Hoje,
toda agente se preocupa...”.

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