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A cleptomania
Augusto Machado
Um homem é apanhado a roubar e
desculpa-se dizendo ser cleptomaníaco.
E o primeiro pensamento que
lhe ocorre é: perdoem-me, pois eu sou
o Pai Natal! No entanto, a cleptomania
genuína é uma doença mental rara
que afecta cinco por cento da população
mundial podendo atingir qualquer
pessoa, em qualquer idade, incluindo
crianças.
Trata-se de uma psicopatologia que se
caracteriza por um impulso para roubar
sem que exista uma aparente necessidade.
A pergunta que se faz é: mas, afinal,
o que está na origem desta doença,
que faz com que mesmo os ricos furtem
objectos sem valor e sem utilidade? Segundo
Paulo Pereira, mestre em psicopatologia,
as causas são na maioria das
vezes uma tentativa de preencher um
vazio afectivo, bem como uma relação
sadomasoquista com o mundo.
“Gamar” por “gamar”. Lembro-me
dum exemplo clássico no tempo em
que eu frequentava a escola primária
de um aluno, de nome Tó-Zé, que não
precisava de furtar, filho de pais que
aparentemente viviam bem, no entanto,
sem olhar às consequências, não resistiaà tentação.
Furtava por impulso.
Para este rapaz de 10 anos, o “gamar”
lápis, canetas, sebentas e até livros aos
colegas, era prazer, satisfação ou, talvez,
alívio no momento de cometer o
roubo. O moço não o fazia para expressar
raiva ou vingança – fazia-o por impulso
patológico. Depois eram os pais,
que se apercebiam dos muitos objectos
que apareciam lá em casa e que não
pertenciam ao filho, que os vinham trazerà escola entregando-os ao professor
os quais este os entregava ao seu justo
dono.
Nesses idos tempos ninguém falava
que pessoas como o Tó-Zé poderiam
beneficiar de uma terapia que poderia
ajudar este jovem a controlar os impulsos
de roubar. Hoje, felizmente, existem
várias terapias que ajudam a resistir
e a controlar a tentação. Se por acaso
alguns dos nossos amigos ou amigas
fazem do “gamanço” um hábito diário,tal como duas personagens das telenovelas “Ninguém
como Tu”, o melhor é aconselhá-los a recorrer a um médico
especialista, pois trata-se de uma doença que pode
ser autocontrolada.
Este impulso de furtar começa desde a tenra idade. A
maioria dos cleptómanos são do sexo feminino, facto
sem explicação científica. Algumas crianças roubam
como forma inconsciente de adquirirem algo que lhes
falta em termos afectivos. Também há que destinguir
entre crianças verdadeiramente cleptómanas e as que roubam para serem aceites num grupo, como espécie de
ritual inicial.
Os castigos e as críticas só aumentam a rebeldia interior
e substituem tristemente o afecto, atenção e diálogo
de que os mais pequenos tanto precisam. A confusão
mental a que são expostos pode, muitas vezes, desencadear
comportamentos piores.
Para evitar que a criança se torne num verdadeiro
ladrão quando atingir a idade adulta, há que começar
pelos pequenos gestos diários. Se o carinho, diálogo
e amor fossem praticados todos os dias, teríamos um
mundo melhor. Ou, pelo menos, com menos furtos e
menos crianças a praticar o mal.

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