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Há verdades que doem
Victor Hugo

SAEu penso que uma coisa que nos incomoda todos é quando ouvimos alguém dizer mal ou quando escutamos críticas negativas sobre alguma coisa ou pessoa de quem nós gostamos, seja da família, dos amigos, do nosso clube, da terra onde nascemos ou do nosso país, e isso ainda mais nos afecta quando não podemos contestar essas críticas por sabermos que são verdades.

As recentes declarações do bastonário da ordem dos advogados sobre a corrupção em Portugal pôs o dedo numa ferida, que dói, algo que já vem de muito longe, mas que poucos têm tido a coragem de denunciar. Talvez por uma razão muito simples, como há muita gente culpada, ninguém pretende ser atacado. Isto traz-me uma recordação de muitos anos atrás, de quando fiz o serviço militar. Lá no quartel, quase toda a gente roubava, do pequeno soldado ao comandante da Unidade, mas como todos eram culpados, não havia acusações. Muitas histórias se poderiam contar sobre um grave problema que sempre tem afectado o nosso país. Mas o que mais me espanta é ter sido um advogado a fazer estas declarações! Quando supostamente são eles os que mais beneficiam! Talvez problemas de consciência ou o desejar um futuro mais risonho para os filhos.

Talvez que a razão porque os processos levam anos e muitos são arquivados, deve ser porque não há interesse em conhecer os culpados e também deve ser essa a razão para que não queiram ver levantado o sigilo bancário que viria descobrir como é que muitos fizeram grandes fortunas.

Num país onde a justiça tem a forma de funil, larga para alguns e estreita para os restantes, algumas das palavras que foram acrescentadas ao dicionário português após o 25 de Abril, como liberdade, socialismo e democracia, soam a falso e perdem todo o sentido. Todos sabemos que a fortuna, a riqueza fácil e sem esforço, é algo de muito atractivo. Recordo-me que alguns anos atrás, no tempo das vacas gordas, também fui tentado a entrar no jogo do vinho a martelo e dos subsídios. Nessa altura, fiz uma escolha entre a fortuna efémera que muitas vezes só traz problemas ou continuar a trabalhar e ter uma vida pacata e sem problema de consciência. Felizmente, escolhi a segunda. Nós, os que saímos de Portugal, somos feitos da mesma massa daqueles que lá ficaram, simplesmente existe uma diferença. Aqui, o sistema não nos permite fazer jogadas. E a solução é só uma: trabalhar e economizar, pois não há os 14 meses nem os subsídios. E aquilo que mais me incomoda é que esta mentalidade foi transmitida às novas gerações. Todas estas críticas negativas, tão frequentes, deixam muito tristes todos os que amam Portugal.
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