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Hoje jogo eu
João Mesquita
Como o prometido é devido, aqui
estou a levar até si um resumo de
uma conversa com um antigo árbitro
que, sob o anonimato, deu-me algumas
referências de como o sistema operava até
ao momento da sua demissão, desistindo
daquilo que gostava ser – árbitro.
Depois de lerem este resumo, poderão
então deduzir se o dito sistema existe ou
não.Vamos então à conversa. Tudo começou
com o fim do ensino secundário.
Paulo (nome fictício) sempre gostou de
ser árbitro nos tempos livres e em torneios
amadores, onde alguém lhe sugeriu
tirar o curso de árbitro que estavam
a dar na Associação de Futebol de Lisboa
(AFL), porque precisavam de sangue
novo. Lá foi e, depois de cerca de 18 meses,
ficou árbitro nacional e pronto a começar
nos escalões mais novos, em jogos
de iniciados, juvenis, nos distritais. Após
2 anos, subiu de categoria (escalão) e
passou então a apitar jogos da 2ª divisão
dos distritais. Já aí começou a receber alguns
presentes dos clubes que jogavam
em casa e que lutavam para subir, mas
que lhe pareciam normais, pois os colegas
também os recebiam, segundo ele. O
mais caro teria sido um relógio de bolso
banhado em ouro.
No ano seguinte, tirando sempre boas
notas, passou a apitar a 1ª divisão distrital
de Lisboa, e aí começou a pressão e o dito
sistema que, segundo ele, vinha de dentro
da AFL. Paulo, um jovem com enorme
progresso e visto por muitos como
um futuro internacional, começou a ser
pressionado logo após a realização da 3ª
jornada quando, na quarta-feira, recebeu
uma chamada a dizer que seria o árbitro
nomeado para tal encontro. Foi avisado “Olha que esse clube está na direcção da
AFL e tem voto na classificação dos árbitros…”.
No domingo de manhã, a mesma
pessoa lhe ligou e disse “Se correr bem,
talvez consigas ir apitar o próximo jogo
a mais de 50 km de casa…”. Ele aí me
explicou que, sendo um jogo a mais de
50 km de casa, recebiam um extra para a
deslocação e podiam mesmo ficar de um
dia para o outro.
Esse jogo correu bem, a equipa da casa
ganhou sem ele ter tido influência e, surpresa – ou não –, na quarta, recebeu então
a chamada para lhe dizer que o clube
tinha agradecido e que ele iria apitar a
mais de 50 km de casa.
Ficou contente mas, na sexta, recebeu
um telefonema a dizer para ele não se
esquecer que no clube “B”, havia um jogador
que precisava de um amarelo para
não poder jogar na próxima jornada, e
que se isso acontecesse, as pessoas iriam
ficar reconhecidas e que seria levado em
conta na sua apreciação final, e que se ele
continuasse a fazer bons jogos, iriam arranjar
uma solução para que ele pudesse
se transferir para a Associação do Porto
ou de Coimbra e assim poderia chegar à 2ª divisão muito facilmente, aonde os
prémios eram muito chorudos, além do
pagamento e das ajudas de custo nas deslocações…
Paulo pensou. Foi apitar o jogo e não
mostrou o dito cartão amarelo. Logo no
domingo à noite, recebeu uma chamada
a perguntar-lhe o que se tinha passado,
ao qual ele respondeu “Foi o meu último
jogo. Amanhã estarei em Lisboa para dar
a minha demissão”. Estes factos aconteceram
há 8 anos. Se era assim nos distritais,
vamos imaginar o que se passava ou
se está a passar lá em cima…
Afinal, o sistema é capaz de existir…

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