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MUITO BONS SOMOS NÓS
A sorte do senhor raptor
Joel Neto

SAEu gosto da Polícia. O meu pai foi polícia, o mais devoto e honroso dos polícias que conheci, e boa parte da minha infância foi passada a jogar bilhar no bar da Polícia, a comer na messe da Polícia, a ver os filmes do Natal da Polícia, que era a única altura no ano em que íamos ao cinema. Lembro-me de ver o meu pai sair de casa à meia-noite, cheio de sono e de frio, para se instalar quatro horas nas traseiras do Banco de Portugal, a
fazer um gratificado, com o seu termo azul clarinho e a revista Jovens/Adultos da Escola Bíblica Dominical por companhia.

Lembro-me de, quando a própria messe era ainda um luxo, comer desse mesmo termo azul no gabinete do quarteleiro do Comando, como que às escondidas, a meio da jornada no Ciclo Preparatório. Lembro-me daquela certeza, daquela determinação, daquele compromisso de proteger a descendência – lembro-me daquela dignidade do meu pai. Uma dignidade que se misturava com a honra de ser polícia, apesar da má fama e do parco ordenado. Também é dessa matéria que sou feito. Da matéria da Polícia.

Mas eu teria morrido de vergonha se o meu pai fosse “bloqueador”. Há-os em Lisboa aos montes: polícias bloqueadores, equipas inteiras de polícias que se dedicam em exclusivo a bloquear, rebocar e multar carros mal estacionados. O mau estacionamento é a mais inofensiva das infracções. Atrapalha às vezes um bocado, mas na maior parte delas nem sequer isso. E, porém, é como se do mais grave dos crimes se tratasse. Gente a morrer nas estradas – e isto.

Digo-o eu, que sou um assassino. Como todos, passo dois sinais cor-de-laranja ao dia – nunca fui multado por violar um semáforo em Lisboa. Como todos, ando sempre com certo grau de excesso de velocidade – nunca fui multado por excesso de velocidade em Lisboa. Como todos, falo com o telemóvel na mão sempre que se me descarrega o bluetooth – só uma vez, que me lembre, fui multado por telefonar ao volante em Lisboa. Bloqueado, fui umas dez vezes. Rebocado, umas quinze. Multado por mau estacionamento, umas cinquenta. E, embora goste de autoridade, não vejo autoridade nisto. Vejo prepotência. Vejo uma câmara municipal obcecada os seus parquímetros – e vejo a sua policiazinha privada, ociosa e manga de alpaca, a espalhar o mal. Para mim, não se trata polícias – trata-se de bloqueadores.

Bloqueadeiros. Estacionadeiros. Eu teria tido vergonha se o meu pai fosse um estacionadeiro em vez de um polícia.

No outro dia, voltei a ser bloqueado pela Polícia Municipal. Lisboa tem um trânsito absurdo para a sua dimensão – e problemas absurdos para a dimensão do seu trânsito.

O estacionamento é um deles. Não há estacionamento em Lisboa. Nem pagando. Para mim, que vivo num bairro histórico, é ainda pior. Até porque uma pessoa vive num bairro histórico e passa de imediato a borguista – dá-lhes ainda mais prazer pôr-nos na ordem. Acabei a conversar com um agente, no gabinete do graduado de serviço, lamentando a minha impotência. E ele: “É assim a lei, não podemos fazer nada”.

“Pois, senhor guarda, mas eu tinha o carro na Rua de São Boaventura, junto a um muro sem porta ou janela... Estava em cima do passeio, está bem, mas ninguém passa naquele passeio desde 1912 – e há trinta anos que aquele passeio tem carros estacionados em cima”. Perdi o meu tempo, mas fiz um amigo. Acabou a confidenciar- me, o senhor agente, que também ele infringe. Nunca usa o cinto de segurança – e, como mora a 140 quilómetros de Lisboa, costuma fazer a viagem em 45 minutos, sempre acima dos 170 km/h. Simplesmente tem mais sorte do que eu. Mas, no fundo, é humano também.

E ali fiquei a ouvi-lo, lembrando-me de uma vez que ia na Marginal Lisboa-Cascais, às duas da manhã, alcoolizado e em excesso de velocidade. Tinha uns 23 anos e era um irresponsável. Mandaram-me parar – tremi. “O senhor sabe que vem a 108 km/h numa estrada com limite de 50?” “Desculpe”, balbuciei. “Bebeu?” “Bebi.” “Bom, tem sorte que hoje só estamos a verificar os selos das inspecções…” É sempre assim, quando sai uma nova lei: a Polícia passa três meses a multar aquilo – e depois esquece. Só o estacionamento estará para sempre na ordem do dia. Traz receitas às câmaras – sobretudo isso.

E, portanto, só podemos especular que um polícia que estivesse aqui há uns meses na Praia da Luz, respondesse, ao ver a pequena Madeleine ser enfiada de cabeça nas traseiras da Ford Transit: “Vá lá, vá lá, senhor raptor: tem sorte, que eu hoje só estou aqui a inspeccionar o estacionamento…” O que é preciso é sorte.

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