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Boca do Inferno
Música portuguesa forever
Ricardo Araújo Pereira
É um sonho que tenho de há
muito: de repente, uma boa
quantidade de artistas anglosaxónicos
decide que a língua
inglesa é um bocado foleira e
que as músicas ficam com muito
mais pinta se forem cantadas em
português.
A lei que obriga as rádios a passar mais música portuguesa
alterou por completo o nosso panorama radiofónico:
hoje em dia ouve-se mais música em inglês.
Muito bem, talvez seja exagero. Mas não andará muito
longe da verdade.
A lei não obriga as rádios a passar uma determinada
quota de música boa, até porque a qualidade da música
depende de um critério subjectivo.
O problema é que a nacionalidade da música também
parece difícil de determinar objectivamente.
Uma música tocada com instrumentos estrangeiros,
cantada em língua estrangeira e produzida em estúdios
estrangeiros por produtores estrangeiros pode ser portuguesa,
e uma música cantada pela Nelly Furtado em
português (supondo que a língua que Nelly Furtado fala
quando pensa que está a falar português é, de facto, português)
pode ser estrangeira.
Vamos supor que a Madonna é acometida de uma virose
esquisita e resolve gravar um vira do Minho em
português.
Pode acontecer.
É um sonho que tenho há muito: de repente, uma boa
quantidade de artistas anglo-saxónicos decide que a língua
inglesa é um bocado foleira e que as músicas ficam
com muito mais pinta se forem cantadas em português.
Pois bem, eis um facto chocante:
o vira da Madonna não será considerado música portuguesa,
por muito que ela esganice a voz, raspe no recoreco
e malhe nos ferrinhos.
Por outro lado, a Ana Malhoa pode cantar o Like a
Prayer da Madonna numa espécie de inglês e canta, que
eu já ouvi com estes que a terra há-de comer.
Como é óbvio, a terra, se fosse minha amiga, tinha-os
comido antes de esta infeliz ocorrência se ter verificado.
O que me preocupa é que o Like a Prayer da Ana Malhoa,
além de contar como música, o que já é estranho,
conta como música portuguesa.
Espero não ser mal interpretado: não tenho nada contra
a música portuguesa que é cantada em língua estrangeira.
Mas tenho dificuldade em distingui-la da música estrangeira.
Sobretudo, acho que se podia variar.
Se a lei permite que a música portuguesa não seja, digamos,
portuguesa, julgo que se podia arriscar um pouco
mais. Por exemplo, compor uma boa música, palpitante
de novidade, numa língua morta.
Discipulae rosas donant magistrae, nomine Iuliae.
Dava um grande tema.
Quanto mais não seja porque, se não estou em erro,
anda para ali um ablativo.
Alguém componha uma rockalhada em latim, se querem
ver o que é bom.
O ablativo sempre me deu vontade de abanar o capacete.
O genitivo nem tanto, mas o ablativo anima mesmo
uma festa.

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