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O PASTOR DAS CASAS MORTAS, de Daniel de Sá
Célia Carmen Cordeiro

“Eu vivo num mundo imundo
desde o dia em que nasci.
Mas nunca sujei o Mundo,
Que o Mundo não vive aqui”.

SAManuel Cordovão, protagonista da obra O Pastor das Casas Mortas, é um simples pastor de ovelhas. No entanto, por vezes, é através da realização de simples acções que o ser humano poderá fazer uma grande obra e transformar-se num grande homem. Esta personagemé de uma sensibilidade e nobreza de carácter distintas.

O narrador pretende contar-nos a sua história de vida baseando-se num conjunto de agendas missionárias, onde a personagem foi rabiscando pedaços da sua vida ao longo do tempo. Apesar desta novela ter como pano de fundo a sociedade portuguesa da década de cinquenta do século XX e, em particular, uma aldeia da Beira Interior, Aldeia Nova da Serra, muitas temáticas retratadas são de tal ordem importantes que são objecto de reflexão até aos nossos dias.

O despovoamento do interior do país é a maior preocupação evidenciada, a qual se verifica no modo como Manuel Cordovão cuida de cada casa abandonada pelo seu dono. Por vezes, antes de os donos das casas emigrarem ou se dirigirem a um asilo porque já não possuem capacidades para cuidarem de si, é a Manuel Cordovão que entregam a chave da moradia onde noutros tempos havia existido um lar. É impressionante a forma pertinente como o narrador associa a personalidade de cada antigo habitante das casas já mortas, porque desabitadas, a um objecto simbólico.

Assim, a janela ilustra a abertura de espírito de Rita, sempre esperançada numa vida melhor; a cadeira personifica o belíssimo contador de histórias que foi o velho Vasco (e através das quais o autor recorda textos que vinham no seu antigo livro da 4ªclasse); a cama reflecte a sensualidade de Laura, de quem todos os homens se afastavam, não se achando merecedores de pecar sem igual; o espelho mostra a angústia de Teresa, vítima de cancro; o berço do filho de Joana identifica o falhanço de Manuel Cordovão, de nem sequer ter conseguido ser pai; as botas do Francisco Poços a relembrarem a sua vinda para a aldeia após o início da Guerra Civil de Espanha; o relógio do emigrante Manuel da Mota, a vivificar as memórias do toque do sino da sua aldeia, estando ele lá longe, na Suíça; o tear onde Madalena teceu as mantas que serviram para o dote de todas as moças casadoiras da sua aldeia e arredores e, ainda, o terço de Maria Angelina a ilustrar o fervor religioso daquela gente humilde que sempre contou com Deus para ultrapassar as misérias do mundo e os desgostos da alma. A crítica prolonga-se, tocando noutros vértices como a Guerra Colonial, pois os jovens deixavam a aldeia com o intento patriótico de irem salvar a pátria, que nunca se lembrara de lhes proporcionar condições de vida dignas. Pelo contrário, propunha-lhes a morte em troca de mais um pedaço de terra conquistado. Tudo isto contribui para o despovoamento do país e, a partir daí, assistimos às suas consequências, em especial nos meios pequenos, como acontece na Aldeia Nova da Serra. Aí as pessoas vivem um espírito comunitário que testemunha o entrecruzamento de valores fundamentais: a amizade, o respeito e a inter-ajuda. Só a experimentação de tais valores consegue explicar a força psicológica que percorre a vida das personagens da novela.

E é com base numa sólida amizade e respeito mútuos que Manuel Cordovão e Maria da Graça compreendem que o tempo deles para vivenciar o seu enorme amor já havia passado. O sonho era demasiado grande para lhes caber na realidade da vida. Viver aquele amor sonhado e não concretizado, ano após ano, seria matá-los. A renúncia torná-lo-ia eterno.Sem dúvida, O Pastor das Casas Mortas, de Daniel de Sá, é uma obra que desperta nos seus leitores a saudade por um tempo em que, apesar de a vida não ter sido fácil, havia a crença em determinados valores, através dos quais as pessoas construíam o seu dia-a-dia num espírito amplo de fraternidade. Uma casa não era apenas um bem material; pelo contrário, era um lar repleto de histórias de vida, de amizades e de amores que ficaram para sempre envoltos numa ternura sem tamanho; era um espaço quase sagrado em que se construíam sonhos e são estes espaços que todos nós temos a obrigação de preservar e não de nos demitirmos da nossa função de responsáveis por muitas das “coisas” menos boas que acontecem na nossa sociedade. Ainda hoje, há muitas aldeias e casas/lares abandonados por esse Portugal fora…

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