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As crianças
também sonham
Augusto Machado
O António lembra-se de quando tinha
os seus sete anos de também
sonhar. Sonhava de um dia ouvir dizer,
aos mais velhos lá da terra, que a guerra
tinha acabado. Estávamos em 1944. E já
andava cansado de todos os dias ter que
percorrer aquele maldito caminho, (cerca
de 15 quilómetros ida e volta) que
separava a aldeia onde vivia da padaria
mais próxima na pitoresca vila de Ponte
da Barca.
Saía de casa antes de nascer o sol para
apanhar a vez naquela que era uma infindável
bicha. Só que outros também
tinham a mesma ideia e chegavam primeiro
do que ele. E quando chegava a
sua vez, com a respectiva senha que lhe
dava direito a cinco pães(também conhecidos
por papo secos, trigos ou moletes)-
o caixeiro olhava-o de cima para
baixo e com uma voz sentida de quem
nada podia fazer, dizia: “Já não há mais
pão, meu rapaz! Agora só amanhã”.
O moço voltava para casa desanimado.
Os pais ralhavam-lhe, acusavam-no de
ter perdido tempo pelo caminho e por
isso outros chegaram primeiro do que
ele. Negava a acusação e prometia que
na próxima não voltaria sem pão. No dia
seguinte, ainda antes do primeiro canto
do galo já o António estava a caminho
da padaria da Barca. A noite estava luarenta,
meteu-se ao caminho descalço,
(pois tamancos só os teve aos 12 anos)
eram caminhos tortuosos por montes e
devesas. Ao Chegar à Barca ouviu as
cinco badaladas no sino da igreja matriz
- eram cinco horas da manhã e para
sua surpresa já tinha dez adultos à sua
frente. A fila depressa se alongou. Sendo
a única criança na bicha, houve mesmo
quem tentasse passar-lhe à frente e até
desviá-lo da fila, valeu-lhe um senhor
que o precedia que o defendeu dos ferrabrás.
As horas, os dias, as semanas e os meses que passou
nas filas para trazer para casa os cinco pães marcaramno
para sempre. A guerra acabou no ano seguinte, 1945
e o António cresceu, tornou-se adulto.
Hoje com 71 anos de idade e talvez por ter sentido,
em criança, a escassez de algo tão essencial como uma
fatia de pão, desde então sempre soube dar valor e apreciar
como é benévolo e louvável viver num mundo sem
fome e sem guerra!
Agora que é avô, nota que as crianças de hoje também
sonham: umas sonham com brinquedos e telemóveis,
enquanto outras, infelizmente, sonham em se libertarem
da extrema miséria em que vivem e das guerras que lhes
tolhe a vida e lhes rouba o futuro.
Do outro lado da medalha temos aquelas crianças que
nem sequer têm tempo para sonhar; são crianças que se
levantam às seis da manhã para a rotina do dia a dia:
lavar, vestir, alimentar. Transporte para o infantário.
Transporte para casa. E tudo isto em situação de stress e
de enorme fadiga dos pais e das crianças.
Hoje as crianças são obrigadas a crescer depressa. Exigimos
que sejam as melhores na creche, no infantário e
na escola. A mais bem comportada. A que tem melhores
notas!
Classifica-se a criança pela sua capacidade de ser ‘igual’ aos adultos e não pela sua capacidade de ser só,
criança!
Muito cedo o adulto força a naturalidade da criança
transformando-a num ser automatizado, intolerante,
egoísta. Felizmente que nem sempre consegue...

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