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Cabeça de porco
Pe. José Maria Cardoso

Estou no sexto andar de um dos hospitais que visito com frequência. Depois de ter visto o doente que ali me tinha levado dou-me conta que é preciso uma chave especial para chamar o elevador. É um daqueles sítios para onde se entra facilmente e se sai com dificuldade. Os doentes que ali estão já dali não saem. Peço a um funcionário que me chame o elevador e de repente oiço uma voz aguda, enervada a gritar: – Por que é que estás a olhar para mim, cabeça de porco? A voz voltou ainda mais forte: – Sai daqui, cabeça de porco. Olhei à minha volta. Orelhas grandes? - Havia algumas.

Narizes arredondados? - Uns quantos. Grunhidos? - Ouvia-se uns sons semelhantes. Mas dizer que havia por ali uma cabeça de porco, não. Não via nenhuma cabeça como aquelas que eu via em cima dos balcões dos talhos da praça velha de Guimarães, morenas como se tivessem chegado da praia e que, de olhos fechados, pareciam dormir sonecas intermináveis ao lado da balança. Porcos de cabeça, talvez por ali houvesse. Mas isso não se vê. Cabeça de porco, que se visse, nem uma. – Tête de cochon…

O elevador tardava mas eu, naquele momento, também já não tinha pressa. Queria saber quem assim estava irritado e por que razão.

Era uma senhora idosa, cabeça ligeiramente tombada, cara de cera, baixinha, com a boca em oval que, sentada na sua cadeira de rodas, fixava os olhos azuis revoltados numa outra que de pé, agarrada a um andarilho, tinha parado perto dela.

– Cabeça de porco, sai daqui. A outra, magra, despenteada, olhava para ela e nem se mexia.

Tivesse a baixinha possibilidade de se libertar da sua cadeira e ter-se-ia atirado à outra como uma leoa. Tivesse a do andarilho o seu perfeito juízo e teria medido aos palmos a cara da do olho azul. Ninguém dava importância aos insultos. Os que ali estavam nem se davam conta do drama.

Por detrás do balcão, indiferentes, bailavam papéis nas mãos dos técnicos de saúde perante uma assistência alheia, já, à dança dos prognósticos e relatórios. O elevador chegou. Carregou aqueles que esperavam e podiam sair até ao dia em que ali entrarem para ficar. É uma questão de tempo. A carinha de cera não sabia, com certeza, o que dizia. A senhora do andarilho não percebia, com certeza, o que ouvia. Ninguém percebe. Ninguém ouve. E quem percebe e quem ouve também não tem soluções fáceis.

Ali estava a vida no seu pior estado, no último andar do hospital, no andar último daquela gente. Sempre me fez confusão estas prateleiras sociais, politicamente correctas, onde a vida, como em frascos, se vai guardando até perder a validade. – Tête de cochon - cabeça de porco.
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