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Fé e factos
J.J. Marques da Silva
No artigo anterior, “Fé e
Religião”, (A V.
P.25/06/08) prometemos
continuar
o assunto pelo
interesse que oferece.
Finalizámos com “a fé é a certeza de
coisas que se esperam, a convicção de factos
que não se vêem” (Hebreus 11:1). Convém
que citemos mais algumas traduções
do mesmo versículo em Bíblias de idioma
diferente. Por exemplo: --“o firme fundamento
das coisas que se esperam”; “...uma
maneira de possuir já o que se espera”; “...a
garantia do que se espera”; “...uma maneira
de aferrar-se ao que se espera”.
Não consideramos estes termos como
sinónimos porque os sentimentos de cada
pessoa crente tendem a apropriar-se da acção
que o seu íntimo esteja alimentando.
Exemplifiquemos: -- a criança a quem o pai
prometeu a bicicleta que traria de França,
tem a certeza de que o pai trá-la-á; razão:
o pai não costuma falhar. A noiva que tem
por noivo um arquitecto que projecta um lar
para habitarem, tem a garantia de que será
belo porque ele lhe mostrou os rascunhos
como fundamentos; a senhora que leva
com ela um cheque que o marido lhe deu
para comprar o colar que deseja, já o sente
no seu colo antes de o possuir, e aferra-se à
maneira de o mostrar às amigas invejosas;
o crente religioso que está gastando um ano
inteiro a fazer penitência, ancorado na sua
obstinação, pensa que Deus não falhará.
Razão: ele cumpre sem defeito... Tudo isto
pode significar fé vivida!
Porém, nenhum destes factos são garantia
segura para serem executados.
Segundo Tanquerey, “na maior parte dos
tratados, a fé é considerada uma adesão
da inteligência à verdade, mas baseada na
confiança. É definida virtude teologal que
inclina a nossa inteligência a dar aprovação
às verdades sob a autoridade de Deus,
que manifestam alguns dos seus segredos”
(cap.lll, 1169 e ll70 Precis de Théologie).
Mas aqui nós esbarramos com inúmeras
dificuldades quando os mentores religiosos
entram a comentar os segredos de Deus pelos
seus ensinos dogmáticos, ou pelos poderes
que dizem ter, e para os quais exigem
obediência. Notamos de imediato que são
eles que submetem Deus aos seus preceitos,
e afundam no absurdo, muitos dos seus
poderes.
Antigamente havia modos estranhos de
estimular a fé. Eis aqui dois milagres de “fé
poderosa”, contidos no livro “Norte e Guia
para o Caminho do Céu”, edição de 1761:
--Frei Honorato viu “uma grandíssima penha
despegar-se do monte e rolar sobre o
Convento onde havia duzentos monges.
Fez o sinal da Cruz e ordenou a tão grande
rocha que parasse; a rocha suspendeu-se
no ar o tempo necessário para a conduzirem
(págª 51)... Também S.Marcelino,
bispo de Ancona, estando enfermo de gota,
se pegou fogo à cidade, e se acendeu com
tal ímpeto que todos a davam por abrasada.
Soube-o o Santo Bispo, e mandou o
levassem àquela parte donde vinham as
mais espantosas chamas; o qual, ali posto
mandou ao fogo em Nome de Jesus Cristo,
que cessasse. E no mesmo ponto, como se
pusessem um freio ao fogo, se foi detendo
tornando a trás” (págª 52).. --O livro tem
345 páginas e contém narrativas de inúmeros
milagres que fazem medo ao leitor
crédulo. Nós transcrevemos as de mais ligeiro
conteúdo.
Nos dias de hoje os detractores dos novos
conceitos religiosos têm os seus meios de
oposição, e ainda se editam livros dessa índole, em todos os sectores de religião,
tidos como fontes de fé. Damo-nos conta
das dificuldades que muita gente tem para
compreender a Deus, e particularmente os
emigrantes quando chegam a este País, os
quais, para se integrarem e conseguirem
emprego, mudam de religião ou de política,
e secam na ignorância do que é viver
em harmonia. A fé é um dom de Deus, e
uma livre adesão da nossa alma. Foi assim
com a mulher que sofria de uma hemorragia
havia doze anos: “veio por trás de Jesus
e lhe tocou na orla da sua veste, e logo a
hemorragia estancou” (Lucas 8:43,44). A
sua fé libertou o poder de Jesus, e na esperança,
que é também “virtude teologal”,
teve o que esperava: a sua cura, e a paz que
o Amor do Mestre lhe consignou!
A esperança pode ser um sentimento ou
uma paixão. O crente, em seu anseio, ao
transferir o interesse para o poder divino,
verificará que a necessidade que tem, é,
afinal, uma possessão divina, pronta para
ser outorgada. Não atingimos o que nos
falta por mérito próprio, mas pelo Amor
de Deus, a mais bela das virtudes teologais!
Porém, ”sem fé é impossível agradar
a Deus, porquanto é necessário que aquele
que se aproxima de Deus creia que ele
existe e que se torna galardoador dos que o
buscam” (Hebreus 11:6).
A Reforma protestante enfatiza a “justificação
pela fé” (Rom.5:1; Gál.2:16; e 3:24),
na outorga da Graça divina. Mas será bom
saber também, que a vontade de Deus,
para connosco, é boa, agradável e perfeita,
e passa pela “renovação da nossa mente”,
“segundo a medida da fé”, que Ele repartiu
a cada um (Rom.12: 2,3), deixando-nos livres
para ser um facto nos dons espirituais.
Vale a pena viver em relação com Ele!

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