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MUITO BONS SOMOS NÓS
Sexo p’ra que te quero
Joel Neto

SALeio sobre a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis entre os adolescentes americanos e fico com vontade de ser adolescente de novo. Se há infecção, o mais natural é que haja sexo – e, se nem toda a gente que faz sexo é infectado, então o mais provável é que o facto de um quarto dos adolescentes americanos ter algum tipo de infecção, como diz Washington, queira dizer que metade dos adolescentes americanos, se não mais, pratica sexo. Ora, talvez o problema fosse meu, mas parece-me que o sexo, no meu tempo de adolescente, não era um hábito: era uma bênção – e nós de bom grado teríamos apanhado um papillomavirus, uma tricomoníase ou uma clamídia se isso significasse que podíamos ter sexo.

Talvez seja essa ansiedade, essa gratidão, o que explica que 80 por cento dos portugueses inquiridos por Manuel Villaverde Cabral e Pedro Moura Ferreira a pedido da Coordenação Nacional para a Infecção tenham admitido que não usariam preservativo nem sequer se o parceiro estivesse infectado com HIV. Os adolescentes portugueses também já fazem sexo, sim: basta ver o que deles disse Marta Crawford nas entrevistas que deu a pretexto do seu novo “Viver o Sexo Com Prazer”.

Acontece que o universo dos inquiridos da CNI vai dos 16 aos 65 anos, o que torna residual a participação de adolescentes e esmagadoramente maioritária a daqueles que, como nós, vêm de outro tempo. Há entre nós muita ansiedade, prova o estudo. E a ansiedade faz-nos estúpidos, sabemo-lo todos.

E, no entanto, o que mais me inquieta nos resultados de outro estudo, este conduzido pela Universidade Lusófona, não são as respostas sobre quantos parceiros os portugueses já tiveram, quantas vezes por semana dão cabo deles ou sequer sobre quantos psichés e mesinhas-de- cabeceira já deram cabo deles. Se há coisa certa na vida, é que ninguém diz a verdade quando questionado sobre os seus hábitos sexuais, havendo no caso dos homens que dividir os feitos por dois e no das mulheres que multiplicar os deslizes por três, como diz a terapeuta britânica Tracey Cox. Inquieta-me, sim, que, em resposta à pergunta mais interessante de todo o inquérito, um grande número de portugueses tenha respondido “Zero”. A pergunta: “Quantos parceiros quer ter no futuro?” Para os próximos seis meses, 31,4 % dos homens e 46 % das mulheres responderam: “Zero”. Para os próximos cinco anos, 25,8 % e 41,4 % responderam a mesma coisa: “Zero”. Para o resto da vida, 6,9 % e 11,2 % responderam ainda a mesma coisa: “Zero”.

Problema português? Não. Segundo um outro estudo ainda, este conduzido pela francesa ANRS, um quinto dos jovens franceses não manifesta interesse por sexo e 6,2 % dos homens e 3,5 % das mulheres adultas dizem ser felizes como abstinentes. Dois dados importantes, pois. O primeiro é que os inquéritos sobre sexo são uma obsessão em todo o lado, o que quer dizer alguma coisa sobre o género humano e o seu estágio civilizacional. O segundo é que um número significativo de indivíduos simplesmente já não quer sexo. Não quer. Seja para reafirmar o nosso compromisso de fidelidade, seja para provar que somos uns “gandas malucos”, nós podemos mentir quando dizemos “um só” ou quando dizemos “uma data deles” – mas por que razão haveríamos de mentir quando dizemos que não queremos nenhum parceiro sexual na vida?

O que motiva estas pessoas – eis aquilo que me intriga. O medo das doenças? Não: existe o preservativo. O medo de perder o controlo? Não: nunca a obsessão do controlo foi mais forte do que a urgência biológica. Motiva-os o medo, sim – mas o medo de falhar. Motivam- nos o stress quotidiano, a falta de desejo – e o medo de falhar no instante de dar conta dele. Motivamnos o culto das mamas perfeitas, das pernas perfeitas, do abdómen perfeito – e o medo de falhar no instante de apresentar os seus ao serviço. Motivam-nos uma cultura sexual orientada para o orgasmo, uma religião que fomenta a culpa, uma pornografia assente no coito, um mito sobre quantidades e durações e folias na casa ao lado, uma história pessoal que é a soma de todos esses equívocos e das dores associadas a eles – e o medo de, no instante de mostrar trabalho, tudo se resumir a meia dúzia de minutos automáticos, em que podia ter sido bom mas nunca deixou de ser assustador.

Está tudo por explicar ainda – e é preciso passar do inquérito à desmistificação. Há oito milhões de portugueses em risco de vida por causa dos mitos e das ansiedades. É por isso que eu às vezes me rio desta conversa toda sobre o Maio de 68.

«O sexo, no meu tempo de adolescente, não era um hábito: era uma bênção – e nós de bom grado teríamos apanhado um papilomavirus, uma tricomoníase ou uma clamídia se isso significasse que podíamos ter sexo.»
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