Os mais vulneráveis ao coronavírus: Afinal quantos são?

Os registos mais antigos de epidemias surgem-nos da Mesopotâmia, local onde a humanidade deu os primeiros passos para uma ética que viria a mudar o mundo e a separar irreparavelmente a nossa espécie das demais.
Na civilização babilónica, o rei Hamurabi criou um código tido em simultâneo como berço da ética médica e prenúncio dos direitos fundamentais do homem, onde explicita a preocupação em defender os mais frágeis. Aos nossos dias chegam ecos dessa clivagem entre o homem e a lei natural do mais forte. Quase quatro milénios depois, em pleno século XIX, a seleção natural foi então anunciada por Charles Darwin, que descreve a impiedosa condição a que todos estamos sujeitos, até mesmo um coronavírus. Somente sobrevivem os mais adaptados — survival of the fittest —, pelo que os mais fracos, em determinado contexto, são naturalmente eliminados. Uma das maiores proezas da humanidade foi conseguir contornar esta lei natural ou, pelo menos, torná-la menos irremediável — entre os homens, não têm de sobreviver apenas os menos vulneráveis. Hamurabi deixou isso por escrito — para que o “fraco” não seja oprimido, este tem de ser protegido pelos outros e pela lei. A doença cavalga ao lado da seleção natural e acomete os que estão mais “fracos”. Perante um agente patogénico, um vírus por exemplo, insta saber quem, entre nós, está mais vulnerável, para que possa ser protegido pelos restantes. Num momento em que estão a ser definidas as próximas medidas de saúde pública a aplicar, em particular, as alterações relativas ao confinamento, torna-se crítico conhecer em maior profundidade quem são e onde estão os mais vulneráveis. Todos sabemos que a população idosa é particularmente vulnerável à infeção pela covid-19, mas no que diz respeito ao risco, é insuficiente segmentar a população apenas com base na idade. A comunidade científica publica a um ritmo nunca antes visto e estão a ser descortinadas as condições que desabrigam o indivíduo, tanto no risco de infeção, como no seu desfecho. É esse um dos fins da Epidemiologia — compreender os fatores que favorecem a doença como forma de desenvolver medidas para a evitar. Contemporâneo de Darwin, John Snow, o pai da epidemiologia moderna, interrompeu a propagação do vibrião colérico ao deslindar as condições envolvidas na disseminação da epidemia da cólera que devastava Londres, nesse caso a localização das pessoas e das bombas de abastecimento de água. Hoje, além da idade, já se conhece um conjunto de condições associadas a um mau prognóstico da covid-19. Algumas dessas condições são doenças que os portugueses tão bem conhecem. Um estudo recente que analisou a literatura científica disponível à data, estabeleceu a hipertensão, a diabetes, a doença pulmonar obstrutiva crónica, e o conjunto de doenças cardio e cerebrovasculares como condições clínicas de risco para desenvolver complicações graves em caso de infeção com covid-19. Infelizmente estas patologias estão longe de rarearem entre a população portuguesa. A título de exemplo, estima-se que mais de um terço (36%) da população portuguesa entre os 25 e os 74 anos de idade, sofra de hipertensão arterial (INSEF 2015). Mais, tratando-se de uma doença crónica, acumula-se numa esmagadora proporção entre os mais velhos: cerca de 3 em cada 4 pessoas (71%) entre os 65 e os 74 anos sofre de hipertensão arterial. À semelhança do que foi realizado por um estudo recém-publicado na revista do Centro de Prevenção e Controlo de Doenças dos Estados Unidos, que quantificou a população norte-americana de maior risco à covid-19 com base na morbilidade — número de portadores de determinada doença em relação à população total — procurámos quantificar em Portugal quantos de nós estão em maior risco. Recorrendo aos dados do último Inquérito Nacional de Saúde (INS 2015) e considerando a população de idosos (cerca de 2,2 milhões, INE/PORDATA), bem como as doenças atrás referidas, que são fatores de risco à covid-19, estimámos que cerca de 15% da nossa população acumula o risco da idade com o risco de sofrer, pelo menos, uma das doenças crónicas mencionadas. Isto significa que cerca de milhão e meio de portugueses esteja particularmente vulnerável (relatório técnico disponível no site do Barómetro Covid-19. Diante de um número tão elevado de pessoas em alto risco, caso a dinâmica epidemiológica se deteriore em Portugal, ou caso ocorra um segundo pico, bastará uma pequena proporção de pessoas ficar infetada para que o nosso Serviço Nacional de Saúde 􀃆que rapidamente em grande esforço, potencialmente em colapso, sem conseguir dar a devida resposta. É, portanto, imperativo continuar a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar a contaminação nas pessoas mais velhas e com doença crónica, custe o que custar. As medidas de saúde pública têm de permanecer pautadas por este princípio, baseando-se na melhor evidência disponível para que o concretizem o mais eficazmente possível. Adicionalmente, tratando-se de um grupo tão heterogéneo, é indispensável conhecê-lo melhor para o continuar a proteger, nomeadamente, quantos se encontram em lares ou quem são os mais desfavorecidos do ponto de vista socioeconómico.
É conhecido em Saúde Pública que as doenças, de uma forma geral, podem exacerbar as diferenças socioeconómicas previamente existentes, isto é, as consequências da doença podem ser mais devastadoras para grupos à partida já mais vulneráveis. Garantir a proteção dos mais vulneráveis nesta pandemia é importante não só porque eticamente está correto, ou porque é um gesto de gratidão e de afeto (que o é certamente!), mas sobretudo por ser esse o pendor da Humanidade, desde o tempo de Hamurabi.